sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O MILENARISMO SUPOSTAMENTE CIENTÍFICO DE MARINA SILVA E SUA VOCAÇÃO AUTOCRÁTICA

Volta e meia escrevo sobre as tentações messiânicas de Marina Silva. Atenção! A crítica nada tem a ver com o fato de ela ser evangélica. O problema da ex-senadora, entendo, não é seu milenarismo religioso — fosse, ela deixaria algumas questões para a segunda volta do Cristo… O que me incomoda nela é seu milenarismo supostamente científico, que avança para a irracionalidade. Líder carismática, ao menos entre os seus fanáticos, não junta, com frequência, lé com lé, cré com cré, mas seus seguidores atuam como se ela já tivesse feito uma viagem ao futuro e atuasse, então, no presente, para nos salvar das ameaças escatológicas. As suas prefigurações apocalípticas não têm nada a ver com o Cristo — atribuir à sua religiosidade o seu discurso impreciso é só uma forma de preconceito antirreligioso. Marina é, no Brasil, a expressão mais acabada — e, como todas, mal acabada — de uma dita agenda global: o mundo teria descoberto o caminho da paz perpétua. Essa agenda totalista, de viés docemente totalitário, não frutifica, por exemplo, em ditaduras. Vejam lá se a China está preocupada com as prefigurações apocalípticas de Marina. Ou a Rússia. Ou os países islâmicos. Perguntem, por exemplo, se George Soros se ocupa de financiar ONGs em Pequim… É preciso haver democracia para que se tenha a liberdade de tentar destruir a democracia. Enquanto os revoltosos não vencerem, a gente via levando…

Não estou aqui a dizer que Marina não acredita nas coisas que diz. Ela é uma profetisa que se leva a sério, sim. Desculpem ser literalmente “rasteiro” quando trato de Marina, vale dizer: ter de chegar ao chão propriamente. Eu ainda me pergunto o que aconteceria com o Brasil — que já está vendo sua balança comercial ir para a cucuia e que amarga os piores resultados nas contas externas — se o Código Florestal que ela brandiu como quem tivesse recebido as Tábuas da Lei tivesse sido aprovado. Resultaria em quê? Numa brutal redução da área plantada. “Ah, não simplifique, não é assim!” É assim, sim, senhores! Demonstrei à farta essa questão por ocasião do debate do tal código.
Pois bem! O deputado Alfredo Sirkis (RJ), do Rio, é um dos mais vistosos aliados de Marina Silva. Está entre aqueles que defendem que o grupo se organize, inclusive ela própria, para disputar as eleições de 2014. Há caminhos para isso. Legendas foram oferecidas à líder. Mas ela resiste. A questão foi debatida na noite de quinta-feira. O confronto entre os dois beirou o bate-boca. Marina acha que sua força simbólica diminui caso dispute a Presidência por outra sigla. De certo modo, tem razão: afinal, isso traria à luz o que ela faz de tudo para esconder: é obcecada pelo poder — embora, claro!, seja vista hoje em dia como uma pessoa quase etérea, que se preocupa apenas com a luz, como se suas ambições, à diferença da de outros políticos, não fosse constituída de matéria, mas apenas de energia. É mesmo, é?
Ora, ela pertencia ao maior partido do país. Poderia, por exemplo, ter lutado para arrebanhar forças internas e disputar posições de comando. Ocorre que Marina não queria ser mais uma; pretendia ser “a” protagonista. Seu grupo se mudou de mala e cuia para o PV. Finda a disputa presidencial, tentaram dar um golpe e tomar a legenda. Ela fez à direção do partido a mesma acusação que fez ontem ao TSE: arcaísmo, legalismo regressivo, burocracia… Comandou a debandada rumo à tal Rede. Alguém então indagou: “Para ser presidente?”. Nãããooo!!! Isso é coisa da “velha política”, das pessoas vulgares, dizia-se. Nunca um partido em formação teve tanto espaço na imprensa e nas redes sociais. A turma só se esqueceu, vamos dizer, de cuidar da cozinha. Com Marina, é assim: mordomos invisíveis sempre administram a casa, enquanto ela flana e vive de luz. Com todo o respeito ao doutor Torquato Jardim, um profissional de respeito, a argumentação no TSE beirou o ridículo: o que se pedia ali é que se descumprisse a lei. No estado democrático e de direito, quando uma lei é ruim, o que se deve fazer é mudá-la. Mas essa tarefa não cabe aos tribunais.
Sirkis escreveu um duro texto em seu blog intitulado “Cartório, auto-complacência…e sincericídio”, que reproduzo abaixo. Atenção! Eu sou um duro crítico de Marina e não estou tentando usar as palavras de um aliado seu para provar que estou certo. Não o conheço, e é provável que discordemos de uma porção de coisas. Não endosso algumas das coisas que vão ali, com destaque para a crítica nada sutil à religiosidade da ex-senadora. O texto serve, de todo modo, como evidência de que Marina, cercada por adoradores, exerce uma doce e iluminada autocracia. Se um dia for eleita presidente, das duas uma: ou será obrigada a renunciar às próprias convicções porque a governabilidade impõe limites racionais que seu discurso não reconhece ou empurra o país para uma crise. Essa conclusão é minha, não de Sirkis. Fiquem com seu desabafo. Chamo especial atenção para o trecho em que ele aborda a “diversidade ideológica” da Rede. Alguém dirá: “Que bom!”. Huuummm… Eu até hoje me pergunto como se conciliariam vocações francamente liberais lá abrigadas — ou “neoliberais”, como querem alguns — com convicções que, às vezes, estão bem à esquerda do petismo. Quem as unirá num único cálice? Bastará a força mística de Marina?
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O Brasil da secular burocracia pombalina, do corporativismo estreito e da hipocrisia politico cartorial falou pela voz da maioria esmagadora do tribunal. A voz solitária de Gilmar Mendes botou o dedo na ferida na forma do juz esperneandi. O direito de, literalmente, espernear. Para mim não foi surpresa alguma, nunca foi uma questão de fé –D eus não joga nesta liga – mas de lucidez e conhecimento baseado na experiência pregressa. Eu tinha certeza absoluta que se não tivéssemos uma a uma as assinaturas certificadas, carimbadas, validadas pela repartição cartórios de zonas eleitorais íamos levar bomba. A ministra relatoria fez uma defesa quase sindicalista da “lisura” de seus cartórios. Gilmar Mendes mostrou claramente o anacronismo deles na era digital. Prevaleceu a suposta “dura lex sed lex” mas que pode também ser traduzido, no caso, pelo mote: “aos amigos, tudo, aos inimigos, a Lei”. E o PT já tinha avisado que “abateria o avião de Marina na pista de decolagem”. Mas não ter entendido que o jogo seria assim e ter se precavido a tempo e horas foi uma das muitas auto complacências resultantes de uma mística de auto ilusão. Para ser direto em bom carioquês: “demos mole”. Marina é uma extraordinária líder popular, profundamente dedicada a uma causa da qual compartilhamos e certamente a pessoa no país que melhor projeta o discurso da sustentabilidade, da ética e da justiça socioambiental. Possui, no entanto, limitações, como todos nós. As vezes falha com operadora política, comete equívocos de avaliação estratégica e tática, cultiva um processo decisório ad hoc e caótico e acaba só conseguindo trabalhar direito com seus incondicionais. Reage mal a críticas e opiniões fortes discordantes e não estabelece alianças estratégicas com seus pares. Tem certas características dos lideres populistas embora deles se distinga por uma generosidade e uma pureza d’alma que em geral eles não têm. Não tenho mais idade nem paciência para fazer parte de séquitos incondicionais e discordei bastante de diversos movimentos que foram operados desde 2010. A saída do PV foi precipitada por uma tragédia de erros de parte a parte. Agora, ironicamente, ficamos a mercê de algum outro partido, possivelmente ainda pior do que o PV. Quanto à Rede, precisa ser vista de forma lúcida. Sua extrema diversidade ideológica faz dela um difícil partido para um dia governar. Funcionaria melhor como rede propriamente dita – o Brasil precisa de uma rede para a sustentabilidade, de fato – mas, nesse particular, querer ser partido atrapalha. Ficarei com Marina como candidata presidencial porque ela é a nossa voz para milhões de brasileiros mas não esperem de mim a renúncia à lucidez e uma adesão mística incondicional, acrítica. Minha tendência ao “sincericidio” é compulsiva e patológica. Nesse sentido não sou um “bom politico”. Desculpem o mau jeito. Hoje tenho oito horas para enfrentar um leque de decisões, todas ruins em relação ao que fazer com uma trajetória limpa de 43 anos de vida política. Mas vou fazê-lo sem angústia de coração leve e mente aberta. Por Reinaldo Azevedo

MÉDICOS MARCAM PARALISAÇÃO; É TUDO AQUILO DE QUE DILMA E A CAMPANHA ELEITORAL DE PADILHA PRECISAM. OU: COMO NÃO CAIR NA ARMADILHA

Como sabem os doutores, pode haver na imprensa quem bata tão duro no programa “Mais Médicos” quanto este escriba; mais duro, convenham, é difícil. Compreendo a razão da mobilização da categoria e afirmo, sem medo de errar, que o governo federal está demonizando os profissionais. Dilma deixou isso muito claro na entrevista que concedeu a rádios do Rio Grande do Norte, quando acusou os médicos brasileiros de não tocar nos pacientes. Segundo a governanta, estes querem ser “apalpados”. Então tá.

Assim, a mobilização contra o programa é compreensível e necessária. Até porque o governo tem sido notavelmente truculento. Mas é preciso tomar cuidado. Leio na VEJA.com, conforme segue, que a categoria decretou uma paralisação de um dia. É um erro. Leiam primeiro o texto. Volto em seguida.
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Médicos de todo o país planejam uma paralisação nacional na terça-feira, 8 de outubro. O anúncio foi feito nesta sexta-feira pelo presidente da Federação Nacional dos Médicos (Fenam), Geraldo Ferreira. Segundo ele, a greve deve suspender os atendimentos ao Sistema Único de Saúde (SUS), aos convênios médicos e até mesmo a consultas particulares. Serão mantidos apenas atendimentos de urgência e emergência. Os médicos protestam contra o texto final da medida provisória 621 (MP dos Médicos), aprovado na última terça-feira por uma comissão especial do Congresso. A nova redação retira dos Conselhos Regionais de Medicina a prerrogativa de emitir o registro provisório para os médicos do programa – a atribuição passou a ser do Ministério da Saúde. Segundo a Fenam, o programa federal Mais Médicos possui sucessivos equívocos e coloca em risco a segurança do atendimento à população. A terça-feira foi escolhida por ser o dia da primeira votação do texto final da MP na Câmara dos Deputados. O relatório precisa ser votado na Câmara e no Senado até 5 de novembro para não perder a validade. O texto final da MP deixou de fora as principais reivindicações da categoria médica, como a exigência da revalidação do diploma dos médicos graduados no exterior. Além disso, o Congresso aprovou a inclusão de uma medida que torna o Ministério da Saúde responsável pela emissão dos registros provisórios dos médicos estrangeiros — antes, a função cabia aos Conselhos Regionais de Medicina.
Voltei
Paralisar o atendimento, acreditem, doutores, corresponde a cair numa armadilha. Atentem para o noticiário da imprensa adesista (incluindo TV): estão brincando de arranca-rabo de classes, opondo, de um lado, os pobrezinhos desassistidos e, do outro, profissionais insensíveis, que não dariam a mínima para os pacientes. Greve de servidores de saúde têm sempre como a primeira vítima os doentes. Trata-se de um monumental tiro no pé. Tudo o que Dilma e o ministro Alexandre Padilha querem é, de um lado, imagens de postos de atendimento do SUS lotados de pobres desassistidos e, de outro, dedicados apalpadores cubanos, a cuidar dos pacientes e a discursar sobre o sentido de missão da profissão. Já há shows da TV, fingindo-se de jornalismo, em que os pobres aplaudem e gritam “vivas!” quando chega um doutor. Qualquer semelhança com a campanha eleitoral de Padilha não é mera coincidência. A paralisação é um erro. Caso seja mantida, a demonstração de descontentamento deveria se precaver da acusação de negligência e descaso, que fatalmente será feita pelo governo federal. Aproveitem, então, o dia para ir para as praças e avenidas para verificar a pressão arterial do povo, apalpar (como quer Dilma) abdômenes e pescoços em busca de massas atípicas etc. A pura e simples paralisação é tudo aquilo de que Dilma e Padilha precisam para provar que estão certos. Por Reinaldo Azevedo

SEI NÃO.... COM UM TROCADILHO NOVO, PARECE QUE MARINA SILVA DÁ PISTAS DE QUE VAI DISPUTAR ELEIÇÃO

Eh, Marina Silva!!! Os que vão morrer, em vez de virar estrela, a aplaudem. A mulher é um gênio do marketing e atua com outros marqueteiros espertos. Eles só são um pouco distraídos na hora de colher assinaturas, mas isso é coisa que se vive aqui, no mundo de baixo, coisa de terráqueos ambiciosos. A Profetisa da Rede concedeu uma entrevista coletiva para dizer se seria ou não candidata à Presidência por outra legenda. Ocorre que ela ainda não decidiu. Será a senhora absoluta do noticiário e das redes sociais por três dias consecutivos. Amanhã ela revela. Mas já produziu um trocadilho novo, que se situa na tríplice fronteira do cristianismo sem teologia, do hiponguismo e da autoajuda. No momento mais solene da entrevista, disparou:

“A verdade não está com nenhum de nós, mas está entre nós”.
O que isso quer dizer? Não sei! Não houvesse ali tantos incréus (a começar dos jornalistas… Brincadeirinha, viu, coleguinhas?), eu seria capaz de jurar que era a manifestação de Pentescostes, quando o Espírito Santo não baixa em nós, mas entre nós… Quem é cristão, mesmo papa-hóstia como eu, entende. Pode ser por isso que Marina passou a falar em língua estranha.
Abusando da glossolalia política, e todos ali fazendo de conta que entediam, afirmou:
“[Quero] reafirmar a necessidade da atualização do processo político do país”.
Não sei o que quer dizer.

Mas ela vai ser candidata? Continuou com sua fala de outro mundo:
“[Vamos ver] quais são as pessoas, movimentos e partidos identificados com a agenda estratégica (…) e com o novo caminho, a nova maneira de caminhar, a reintegração entre representantes e representados”. Ela quer ainda “aposentar de vez a velha política”.
Vai ou não vai?
Num dado momento, Marina Silva afirmou que vai pesar na sua decisão a necessidade de romper a polarização entre “a oposição pela oposição” e a “situação pela situação”. Vênia máxima à profetisa, trata-se de uma informação falsa como nota de três reais. Desde quando o PSDB, por exemplo, fez “oposição por oposição”? Isso é apenas mentira! Aliás, quando ela era ministra do governo Lula, os maiores defensores no Congresso de algumas medidas de seu então colega de Ministério Antônio Palocci foram os tucanos. Quem combatia as ações corretas e sensatas de ajuste fiscal, por exemplo, era Heloisa Helena, que agora é membro da “Rede”…
A resposta, de todo modo, aponta que Marina pode, sim, se candidatar. E o adiamento de um dia, acho eu, sugere que há uma conversa em curso. Marina pode ter feito exigências a alguma das legendas que lhe ofereceram abrigo, e a direção do partido em questão deve estar pensando. Não fosse assim, por que o adiamento? Um partido pode até mudar de nome, se quiser, para abrigar Marina. Pode, por exemplo, passar a se chamar… Rede. A questão seria o que fazer com os dirigentes herdados. No PV, a coisa não deu certo porque ela tentou mandar a turma pra casa…
Agora que eu sei que “a verdade” estava lá, enquanto ela falava, estou mais tranquilo. Minha vida também mudou, confesso. Eu já havia me convencido de que a dita-cuja existe em certos campos do conhecimento, como as ciências da natureza, a matemática etc. Eu a aceito, também, na dimensão religiosa (para os crentes, como eu). Em política, sempre considerei que a “verdade” fosse uma questão de valor, não de revelação. Por Reinaldo Azevedo

DILMA E O MUNDO DAS PESSOAS "VAIÁVEIS" E "NÃO VAIÁVEIS"

Neste post, vocês assistirão a  um vídeo em que a presidente Dilma faz digressões sobre a vaia. Antes, algumas considerações.

Não há mesmo jeito de eu e as esquerdas — ou isso que está aí e que chama a si mesmo de “esquerda” — nos entendermos. Paulo Bernardo, das Comunicações, está entre os ministros de Dilma que eu não vaiaria, embora existam discordâncias severas entre nós — ou ele não seria petista, e eu não pensaria o que penso do seu partido. No geral, no entanto, parece que ele tem uma atuação correta à frente do ministério. Não o vejo a promover chicanas ou a jogar palavras ao vento. Estaria aí a raiz da indisposição de certos setores da extrema esquerda e do petismo com ele? Não sei. Já percebi também que o JEG (Jornalismo da Esgotosfera Governista), financiado por estatais e por gestões petistas, não gosta dele. É que essa gente quer ainda mais dinheiro oficial para puxar o saco do governo e ofender seus desafetos. Além disso, baba vermelho, num antegozo, quando pensa no tal “controle da mídia”. Até onde sei, Bernardo não é um entusiasta da tese. Os fascistoides de esquerda, assim, o hostilizam. Adiante.
Dilma participou de uma solenidade na cidade de Campo Mourão, no Paraná, estado de origem de Bernardo. Quando a presidente anunciou o nome do ministro, um grupo de funcionários dos Correios o vaiou. Há uma greve parcial na estatal. Os líderes reivindicam um reajuste de 15%, mas a empresa diz que só pode conceder 8%. A representação sindical da categoria está tomada por partidecos como PSOL, PCO e outras minoridades barulhentas, mas que sempre custam caro.
Deu-se então o que segue. Assistiam ao vídeo.
Retomo
Não há dúvida de que esta Dilma que aí está exibe muito mais jogo de cintura do que aquela candidata que foi ao programa de Datena, lá no começo de 2010, e disse que sua santa de devoção era uma certa “Nossa Senhora de Forma Geral”, que é a padroeira dos candidatos que decidem virar papa-hóstia na boca-da-urna. Também não é aquela que, ao tentar explicar um apagão, “minha filha”, dava pito em repórter. Seu marqueteiro pode ficar orgulhoso. Ela própria deve estar feliz com o desempenho.
Não vejo nada de engraçado ou de simpático num evento dessa natureza. A governadora a que ela se refere é Rosalba Ciarlini (DEM), do Rio Grande do Norte.Escrevi a respeito. Nesta quarta, numa solenidade no Estado, Rosalba tentou falar. Foi vaiada por sete minutos. A presidente saiu em seu socorro e acabou vaiada também — mas só por isso. No mais, foi aplaudida.
Aos fazer o discurso que vocês veem acima, simpático só na aparência, Dilma, na prática, separa as pessoas em duas categorias: as “vaiáveis” e as “não-vaiáveis” . Ela própria, como se depreende, está no segundo grupo (mundo que deve ser habitado, também, por Lula). Os outros — e dane-se se isso inclui um ministro seu — estão sujeitos ao que ela chamou “direito de pleitear, de reivindicar”. Já escrevi aqui que, se eu fosse um político de oposição, jamais subiria num palanque com Lula ou com Dilma. Vejo agora que também não aceitaria ser ministro. Dilma deveria ter dito ao menos umas quatro ou cinco palavras em defesa de Bernardo. Nem que fosse para ser vaiada outra vez.
Não é que ela não conheça a estrepitosa manifestação hostil do público — e não de uma plateia formada de petistas e militantes de esquerda. Como esquecer o dia da abertura da Copa das Confederações, não é, soberana?
Ela poderia ter engatado esse discurso gracioso naquele dia. Não o fez. Virou a verdadeira “Dilma Bolada”. E faltou ao jogo de encerramento. Afinal, ela pertence ao mundo dos “não-vaiáveis”. Por Reinaldo Azevedo

LULA PROCURA UM NOME "DE DIREITA" PARA VICE DE PADILHA; O COTADO É O EMPRESÁRIO MAURÍLIO BIAGI

Lula estabeleceu um objetivo em São Paulo: “encontrar um vice de direita” para Alexandre Padilha. Ele quer ganhar a simpatia daquilo que Marilena Chaui, a iluminada, chama o “reacionarismo” de São Paulo e vencer os supostos preconceitos da classe média paulista, que ela, como se sabe “ODEIA” (é preciso ler essa palavra com os olhos arregalados e os cabelos desgrenhados). O chefão petista sempre foi sinceramente grato a José Alencar por ter aceitado ser seu vice, o que contribuiu para esmaecer a imagem de radicalismo que ele próprio e seu partido carregavam. E, com efeito, Alencar foi um vice leal — à parte suas divergências com as políticas monetária e cambial; críticas que, de resto, encontravam eco nos setores mais à esquerda do PT. Se Paulo Skaf, presidente na Fiesp, hoje no PMDB, aceitasse a incumbência, tudo estaria resolvido. Mas ele não aceita. Nas pesquisas de opinião que andam por aí, apenas para o consumo daqueles que as encomendam, Skaf aparece em segundo lugar, bem atrás de Geraldo Alckmin (PSDB), que concorre à reeleição, mas muito à frente de Padilha (no geral, o triplo). 

O nome da hora, para Lula, no qual ele investe suas fichas, é Maurílio Biagi Filho, presidente do grupo Maubisa e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Biagi se filiou ao PR, partido que integra a base de apoio da presidente Dilma e que deve marchar com Padilha no ano que vem. A Maubisa atua no agronegócio, gestão imobiliária, gestão de investimentos e novos negócios, segundo informa a sua página na Internet. Biagi confirma a sondagem, mas diz que ainda não tomou sua decisão.
Huuummm… Cada um faça o que quiser da sua vida política e da sua biografia. Sempre acho engraçado quando políticos ou empresários do, como chamarei?, campo conservador (ou mais à direita do PT) se juntam ao petismo. Costumam ser movidos pela vã ilusão de que, uma vez lá dentro, caso a empreitada dê certo, consigam “fazer alguma coisa”, como se o petismo fosse capaz de dividir o poder ou de dividir o protagonismo.
Peguem o caso de Ciro Gomes, coitado! Ligou-se a Lula quando era uma figura de dimensão nacional e está terminando seus dias num troço chamado “PROS”. Continua a ser a língua mais rápida do Nordeste, mas a gente poderia perguntar: “Pra quê?”. E a resposta seria: “Pra nada!”. Chegou a passar o ridículo de mudar seu domicílio eleitoral para São Paulo na vã esperança de que o os petistas pudessem apoiá-lo na disputa pela Prefeitura. O próprio Eduardo Campos teria sido engolido se não tivesse despertado a tempo. Mesmo assim, não custa notar, se não procurar algum espaço mais próximo à oposição, não lhe resta nada.
“Deu certo com José Alencar”, poderia dizer alguém. É? Eu tinha até simpatia por Alencar, mas cabe perguntar: o que ele conseguiu efetivamente fazer no governo? Além de sua amizade com Lula, restou o quê?
Se esses exemplos não bastassem, vamos para o caso em espécie: um empresário. Jorge Gerdau foi nomeado por Dilma o comandante da Câmara de Gestão e Planejamento do Governo Federal, um órgão de assessoramento direto da Presidência da República. No Fórum da Exame, ele deu uma nota para a governança no Brasil: entre 3 e 4. Não me parece que ele próprio esteja satisfeito com o espaço que tem para trabalhar.
Em Minas Gerais, a estratégia é a mesma. Josué Gomes, filho de Alencar, filiou-se ao PMDB. A expectativa é que seja vice do petista Fernando Pimentel. Lula tem dito que seria uma chapa imbatível. O sonho dourado do petismo, como se sabe, é conquistar São Paulo e bater Aécio Neves em seu território. Vamos ver.
O PT, como se sabe, não é exatamente hostil ao empresariado. Muito pelo contrário. Não custa lembrar na generosíssima Bolsa BNDES que vigora por aqui — ou da Bolsa Desoneração Fiscal etc. A única exigência é que o empresariado se subordine às teses do partido e lhe seja servil.  Aí alguém poderia dizer: “Ah, melhor assim, né? Melhor o petismo cercado de empresários do que hostil a eles…”. Claro! A questão é saber se o modelo está dando certo. Um país que investe, no máximo, 18% do PIB e tem uma das cargas tributárias mais altas do planeta, com serviços pífios, fala por si.
Não conheço Biagi nem sei se ele está entre aqueles beneficiados por algum favor. Espero que não. Mas isso, para o caso de que trato aqui, é irrelevante. O fato é que o petismo busca esses representantes do capital produtivo para lhe servir de esbirro só como um tributo que o vício presta à virtude. Digamos que tudo dê certo pra eles; digamos que Biagi seja vice de Padilha e que o petista seja eleito. Espero que o empresário não tenha a ambição de que possa, algum dia, ser o titular em alguma disputa relevante. Não com essa turma ao menos. Afinal, não custa lembrar que nem mesmo Dilma é vista como uma petista autêntica por parte considerável dos “companheiros”. Falta-lhe a “pureza” de origem. Para muitos, ela não passa de uma brizolista infiltrada.
Para encerrar: Maurílio Biagi é mesmo “de direita”? Não se tem notícia. Mas assim é o mundo na fantasia petista. Biagi serve basicamente a um propósito: quando alguém lembrar que o PT é a principal fonte alimentadora das loucuras do MST, os companheiros então dirão: “Vejam aqui: o nosso vice é um grande empresário do agronegócio”. Por Reinaldo Azevedo

O ANIVERSÁRIO DA PETROBRAS E AS MÃOS SUJAS DE LULA, CARIMBADAS NAS COSTAS DE DILMA. OU: EU, PETROBRAS, 60 ANOS, ENDIVIDADA E REBAIXADA

Como esquecer estas fotos? Já volto a elas.

Nos 11 anos de gestão petista, muito especialmente nos oito em que Lula esteve à frente do governo, nenhuma área do governo ou empresa estatal teve uma gestão tão arrogante, tão autoritária e, ao mesmo tempo, tão ineficiente quanto a Petrobras — e olhem que não se está falando exatamente de uma estatal. Como se sabe, trata-se de uma empresa de economia mista. Os desacertos foram se acumulando. Em vez de dar explicações quando confrontado com os problemas, o petista José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da gigante, demitido pela presidente Dilma em janeiro de 2012, respondia com grosserias e desaforos. Muito bem: a empresa está fazendo 60 anos. No seu aniversário, duas péssimas notícias: 1) a agência de classificação de risco Moody’s rebaixou as notas de crédito da estatal de A3 para Baa1 em razão do elevado endividamento (e, nesse particular, o governo Dilma tem uma parcela enorme de responsabilidade); 2) segundo relatório do TCU, o atraso na entrega do Complexo Petroquímico de Itaboraí (Comperj), no Rio, pode gerar um prejuízo para a empresa de R$ 1,4 bilhão.
A Petrobras encerrou 2010 devendo R$ 118 bilhões; em junho deste ano, já devia R$ 249 bilhões — parte desse rombo decorre de a Petrobras importar gasolina a um preço superior ao de venda no mercado interno. Como a economia degringolou, é preciso segurar o preço dos combustíveis para que a inflação não dispare. E então voltamos às fotos. No dia 21 de abril de 2006, durante a inauguração da Plataforma P 50, em Campos, Lula repetiu o gesto de Getúlio Vargas, em 1952, e sujou as mãos de petróleo. O populista marcava o início da extração no Brasil; o petista comemorava a suposta autossuficiência do Brasil. Pois é…
Na gestão petista, a Petrobras, que nunca foi exatamente um exemplo de transparência, transformou-se, de fato, numa caixa-preta. Exemplos escandalosos de má gestão e de uso político da empresa foram se acumulando. Em 2006, por exemplo, o presidente da Bolívia, Evo Morales, tomou duas refinarias da Petrobras no país — de arma na mão. Se a empresa recebeu alguma compensação justa, ninguém sabe, ninguém viu Nem por isso o índio de araque deixou de ser uma aliado e, na expressão de Lula, “um querido”.
Também em 2006, a Petrobras resolveu comprar uma refinaria em Pasadena, nos EUA. A história toda, enroladíssima, atualmente sob investigação do Ministério Público, está explicada aqui. Prejuízo da operação comandada por Gabrielli: aproximadamente US$ 1,2 bilhão.
Acima, vão algumas das evidências de que a Petrobras foi mergulhando numa rotina de má governança. Não para por aí: com a mudança do regime de exploração do petróleo de concessão para partilha, no caso do pré-sal, a empresa é obrigada a ser sócia das explorações, o que lhe impõe pesados investimentos. Como investir se enfrenta um grave problema de caixa, que vai se agravar nos próximos anos, segundo a Moody’s?
Complexo Petroquímico
A Petrobras deveria ter inaugurado no mês passado o Complexo Petroquímico de Itaboraí, no Rio. A previsão, agora, é que o empreendimento seja entregue só em agosto de 2016 — com quatro anos de atraso. Segundo o Tribunal de Contas da União, isso acarretará um prejuízo de R$ 1,4 bilhão. A obra, inicialmente orçada em R$ 19 bilhões, não ficará por menos de R$ 26,6 bilhões, segundo reportagem do Jornal da Globo.
Entre os motivos do atraso, o tribunal aponta irregularidades na instalação das tubulações, que ficou a cargo de uma empresa chamada MPE. Só essa parte da obra foi orçada em R$ 730 milhões. Até abril, apenas 15% do trabalho havia sido realizado — quando deveria estar em 42%. Mais: o cadastro da MPE nos arquivos da empresa não recomendava a sua contratação. Mesmo assim, na licitação, ela venceu as concorrentes, embora tenha apresentado um sobrepreço, em relação às outras, de R$ 162 milhões.
Um pouco de memória
O PT foi fundo na impostura, e a Petrobras serviu ao uso eleitoreiro mais descarado. Em dezembro de 2009, Gabrielli teve a cara de pau de conceder uma entrevista afirmando que FHC havia tentado privatizar a Petrobras. Trata-se de uma mentira escandalosa, escancarada, vergonhosa. Nunca houve, INFELIZMENTE, nenhuma iniciativa de governo nenhum nesse sentido. Já seria um despropósito que o presidente de uma empresa mista, nomeado pelo governo, fizesse proselitismo eleitoral. Fazê-lo com mentiras era ainda pior. Ficou por isso mesmo.
Já candidata, durante o debate eleitoral, em 2010, Dilma insistiu naquela cascata de Lula de que o pré-sal era o “bilhete premiado”. Acusou José Serra, seu adversário tucano, que criticou o modelo da partilha porque impunha pesados desembolsos à Petrobras, de estar querendo entregar o “filé-mignon” para os estrangeiros. E chamou, então, 57 anos de história da Petrobras de “carne de pescoço”. Vejam o filme.
Observem com que energia ela fala, com que convicção, com que sabedoria. Vocês viram, na licitação do campo de Libra, quanta gente estava interessada no nosso “filé-mignon”…
Uma Petrobras rebaixada, endividada e encalacrada num modelo de exploração do pré-sal que lhe impõe um custo com o qual não pode arcar é, sem dúvida, uma obra inequívoca do PT. As barbaridades maiores foram cometidas, sim, na gestão Lula, mas não se pode esquecer de que a gerentona do setor de energia era Dilma.
Para encerrar: tentou-se fazer um enorme escarcéu com os delírios de Edward Snowden e Glenn Greenwald, segundo os quais o governo americano teria espionado segredos da Petrobras. Escrevi, então, que não havia mal que os gringos pudessem fazer à empresa que os governantes brasileiros não fariam, algumas vezes multiplicado, por sua própria conta. Eis aí. Por Reinaldo Azevedo

MOODY'S REBAIXA A NOTA DE CRÉDITO DA PETROBRAS

A agência de classificação de risco Moody's rebaixou a nota da dívida de longo prazo da Petrobras de A3 para Baa1 no dia em que a estatal comemorou 60 anos. Apesar do rebaixamento, a companhia mantém o status de grau de investimento. De acordo com a Moody's, a empresa deverá ter um fluxo de caixa negativo nos próximos anos em razão da implementação de seu programa de investimento. Além disso, a agência manteve a perspectiva negativa para os ratings da Petrobras. Em comunicado, a Moody's avaliou que a alavancagem da Petrobras deverá chegar ao seu máximo nos anos de 2013 e 2014 e será bem maior do que seus concorrentes do setor. Essa alavancagem somente deverá cai a partir de 2015.