domingo, 2 de agosto de 2015

O Brasil está condenado

O leitor que usa o nickname Taxi Driver reproduziu uma frase de Ayn Rand que expressa, achamos nós, o sentimento da maioria dos leitores do Antagonista: "Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada". O Brasil está condenado.


Ayn Rand: se tudo se mostra errado, não duvide de que tudo está errado

FHC: asinino ou asnático?

Assim como o Diogo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está na Sardenha. Ele próprio informou languidamente o seu paradeiro num artigo publicado no Estadão, intitulado "Lobo ou cordeiro?" FHC disse que teve a sua "tranquilidade entrecortada, não pela agitação dos mares, mas pelo lento e contínuo noticiário sobre o desmoronar de muito do que se construiu a partir da Constituição de 1988". Ele escreve sobre o PT, evidentemente. Conclui que "para dialogar, não adianta se vestir em pele de cordeiro. Fica a impressão de que o lobo quer apenas salvar a própria pele". Pois é, FHC ainda está na dúvida se o PT é lobo ou cordeiro. Fazia séculos que o Mediterrâneo não testemunhava uma incerteza tão asinina. Ou seria asnática?

Sociologizando FHC

No artigo do Estadão em que expressa a dúvida se o PT é lobo ou cordeiro (não é dúvida retórica), FHC diz "que a hora para agir já não é mais, de imediato, do Congresso e dos partidos, mas da Justiça". No entanto, na entrevista à revista alemã em que afirma que Dilma é "honrada", FHC diz também que:
a) “Para colocá-lo (Lula) atrás das grades, é necessário haver algo muito concreto. Talvez ele tenha que depor como testemunha. Isso já seria suficientemente desmoralizante.''
b) "Isso dividiria o país. Lula é um líder popular. Não se deve quebrar esse símbolo, mesmo que isso fosse vantajoso para o meu próprio partido. É necessário sempre ter em mente o futuro do país.''
Depois da repercussão negativa da entrevista, FHC emitiu uma nota para esclarecer que "Se o merecer, quem dirá será a Justiça e é de lamentar, porque terá jogado fora sua história.” As idas e vindas de FHC devem-se ao fato de ele relutar em aceitar que "o líder operário", aquele que considera ser a sua maior criação como intelectual da esquerda uspiana e como presidente da República, é um tremendo fracasso que deve acabar no xilindró. Quando lamenta que Lula está jogando fora a sua história, FHC está apenas falando de si próprio.

Filho de oficial nazista rompe com família e se converte ao judaísmo

O médico Bernd Wollschlaeger, de 57 anos, rompeu com a família após descobrir o papel que seu pai Arthur Wollschlaeger, um comandante de tanque condecorado pelo ditador nazista Adolf Hitler, teve na Segunda Guerra (1939-1945). Após converter-se ao judaísmo, Wollschlaeger mudou-se em 1987 para Israel, onde adquiriu a cidadania israelense e serviu por dois anos no Exército como oficial médico. Um dos protagonistas do documentário "Fantasmas do Terceiro Reich", da brasileira Claudia Sobral, Wollschlaeger vive desde 1991 na Flórida, nos Estados Unidos. Veja seu depoimento: "Nasci em 1958 em Bamberg, no sul da Alemanha, onde aprendi muito cedo a importância da história por estar cercado por ela. Perguntava aos meus pais sobre seu passado, sobre meus avós, mas só se limitavam a dizer que houve uma guerra. Mas gradualmente comecei a colher duas versões diferentes. Da minha mãe, uma tcheca de etnia alemã, ouvia sobre o horror de ter sido desalojada de casa, de ter perdido tudo que lhe era caro. Do meu pai, ouvi as histórias de glória. Comandante de tanque, ele participou dos ataques à Polônia em 1939, à França em 1940 e à União Soviética em 1941. Um dia me mostrou a condecoração que recebeu de Hitler: a Cruz de Ferro. Assim, quando tinha 6, 7, 8 anos, meu pai era um herói de guerra e eu devia ter orgulho dele. As dúvidas surgiram entre meus 8 e 9 anos, porque havia algo curioso na nossa residência em Bamberg. Vivíamos de aluguel no primeiro andar de uma construção antiga. A proprietária, uma condessa com quem minha mãe me proibia de falar, morava no andar de cima. Na parede ao lado da escada que levava ao seu apartamento ficava o retrato de um militar também usando o quepe, a Cruz de Ferro. Meu pai referia-se a ele como "o traidor", e eu não entendia por que alguém que parecia com ele poderia ser ruim. Até que descobri que o retratado era Kant Claus von Stauffenberg, o coronel alemão que liderou a tentativa de assassinato contra Hitler em 20 de julho de 1944. E foi com sua viúva, Nina Stauffenberg, que aprendi mais tarde que houve uma Alemanha de ditadura e que houve pessoas que lutaram contra o sistema. Quando tinha 14 anos, nos ensinaram na escola que as Olimpíadas de Munique, em 1972, demonstrariam ao mundo uma nova Alemanha, e não a de 1936, quando Hitler usou os Jogos como propaganda nazista. Meus pais convidaram amigos para assistir à abertura. E, quando a equipe que trazia a estrela de Davi na bandeira entrou no estádio, toda o clima mudou. Meus pais pararam de falar, como se tivesse aparecido um fantasma. Dez dias depois, essa equipe foi feita refém por terroristas palestinos. E então o curso da minha vida mudou no dia seguinte ao fracasso do resgate, quando li nos jornais a manchete "Judeus mortos novamente na Alemanha". Na escola, tiveram de nos explicar sobre Auschwitz, a solução final, a morte de judeus como política de Estado. 
 

Apesar de meu pai ser um cara muito durão, com quem era difícil falar por controlar a situação, confrontei-o: "Pai, o que sabe sobre o Holocausto?" Ele respondeu que isso era uma mentira, que tudo era propaganda comunista. No curso de vários anos, o abordei para tentar extrair a verdade. E, aos poucos, me disse. Aos poucos, ela apareceu. Em janeiro deste ano, um especialista militar me entregou uma mala do mecânico do tanque de meu pai. Ela estava cheia de rolos rasgados da Torá. Os parentes dele relataram que, na invasão da Polônia e da Rússia, os membros do regimento do meu pai destruíram vilas judaicas, mataram todos e saquearam. E usaram os rolos da Torá para envolver os motores dos veículos e evitar que perdessem calor no inverno. Então, meu pai não apenas soube do Holocausto: ele participou dele. Quando eu tinha 17, 18 anos, ele defendeu o Holocausto dizendo: "Foi necessário, porque alguém tinha de se livrar da sujeira". Durante todo esse processo, quanto menos meu pai estava interessado em falar sobre o assunto, mas me interessei em aprender sobre o judaísmo. E, quanto mais me aproximei dessa família de escolha, mais me distanciei da minha de origem. Entre os 19 até os 26, 27 anos, passei por uma mudança espiritual. Converti-me e me tornei judeu ainda na Alemanha, e isso foi um total rompimento com minha família. Tive de partir e imigrei para Israel em 1987. Deixei minha nacionalidade alemã para trás, me tornei israelense, deixei minha fé cristã para me tornar judeu, servi no Exército israelense. Me desconectei totalmente do meu antigo eu para manter a sanidade. Minha jornada foi resolver meu próprio conflito, me reconciliar comigo mesmo, entender como posso ser alemão, ser filho de um pai que fez isso? E como ser eu mesmo, normal? Foi uma redenção pessoal. Comecei essa jornada me sentindo culpado. No fim, me tornei um judeu por convicção. Não posso limpar o passado de meu pai ou desfazer o que aconteceu. Hoje não me sinto mais culpado, mas sinto que, como filho dele, sou responsável. Que tenho de carregar essa vergonha. Mas na minha vida fiz e faço tudo o que posso para contribuir para essa redenção. Meu pai nunca foi capaz de sentir remorso. Antes de morrer, incluiu no seu último testamento que eu nunca deveria visitar sua sepultura, não deveria comparecer a seu funeral, me deserdou. Obviamente, não fui ao seu enterro. Estava em Israel quando morreu. Mas visitei seu túmulo 20 anos depois, com meu filho. A parte irônica é que o túmulo conjunto dos meus pais fica exatamente do lado do muro que separa o cemitério cristão, de Bamberg, do cemitério judaico. Quando você olha a partir do túmulo dos meus pais em direção a esse muro, vê do outro lado as lápides judaicas. Olhando para aquilo, disse ao meu filho: "Essa é lição que posso te ensinar: a história sempre projetará sua sombra, mesmo na morte. Por isso é melhor lidar com ela estando vivo, saindo da sombra e aprendendo suas lições". Meu pai nunca fez isso. Literalmente, ele repousa sob a sombra da história por toda a eternidade.

A delação premiada tem de ser regulamentada para não pôr em risco o combate ao crime. Ou: Advogado de porta de cadeia e de porta de MP

A Operação Lava Jato, escoimados exageros e ilegalidades, pode fazer um bem ao País se mudar — mas terá de ser para melhor, por óbvio — a relação entre o estado (e seus entes) e as empresas que ele contrata para tocar serviços e obras. Cumpre notar à margem, desde sempre, que não haverá a desejada redução da corrupção no país enquanto o ente estatal tiver o tamanho que tem no Brasil. A Lei de Licitações, a 8.666, é, sim, um bom texto. Mas seu espírito pode ser fraudado já na redação de um edital. Basta que se incluam exigências no texto que restrinjam a disputa a duas ou três empresas de qualquer setor. Você não gosta de corrupção, leitor? Há duas saídas: a) apostar todas as fichas na natureza humana; b) cobrar a redução drástica do tamanho do estado, de modo que ele restrinja a sua atuação a saúde, educação, segurança e regulação. E ponto. Não vai zerar a safadeza, não, porque isso remonta à cobra e à maçã, mas vai melhorar muito. Sigamos. Não se teria chegado tão longe na descoberta das falcatruas que envolveram o assalto à Petrobras não fosse o estatuto da delação premiada. Mas a realidade está a gritar uma obviedade: ELA PRECISA SER DISCIPLINADA. E COM URGÊNCIA. Como está, as coisas podem assumir contornos bastante perigosos. ADVOGADOS ACUSAM A CPI DA PETROBRAS DE ESTAR SENDO USADA PARA SE VINGAR DESSE OU DAQUELE. É? Faço aqui uma pergunta: A ESTA ALTURA, NÃO HÁ PESSOAS TENTANDO USAR A LAVA-JATO PARA FAZER A MESMA COISA? Quantas delações? Vamos ver. Volto à inefável doutora Beatriz Catta Preta. Confesso que já acho um tanto estranho haver um escritório que se especializa em delações premiadas. Na porta, poderia haver uma plaquinha: “São bem-vindos os bandidos que, mesmo sem arrependimento, querem livrar a cara”. NÃO! NÃO ESTOU DIZENDO QUE A DELAÇÃO PREMIADA É UM MAL EM SI. REITERO: TEM DE SER DISCIPLINADA. Vamos ver. Faz sentido um mesmo advogado ter uma penca de delatores sob seus cuidados? Há um momento, suponho, em que o larápio tem de contar para o seu defensor o que fez. Se a versão do larápio A não combina com a do larápio B, que, por sua vez, diverge da do larápio C, o advogado em questão faz o quê? Leva seus clientes para a Corte, com todas as suas contradições, ou faz um “encontro de versões”? Acho que a resposta é mais do que óbvia, não é mesmo? Doutora Beatriz, que desistiu da carreira, segunda ela própria, era bastante voraz até outro dia: fez nada menos de nove das vinte (se não perdi a conta) que foram homologadas até agora. É evidente que ela tem de se ocupar, por imposição lógica, menos da “verdade” do que da coerência, não é mesmo? Ou os seus defendidos vão acabar se complicando nos tribunais. Pouca gente se lembra a esta altura da confusão, mas, inicialmente, Rodrigo Janot acrescentou o deputado Eduardo Cunha à sua lista porque o policial Jayme de Oliveira Filho afirmou que havia entregado dinheiro, a mando de Alberto Youssef, para um emissário do parlamentar. O advogado do doleiro, Antonio Figueiredo Basto, negava veementemente que isso tivesse acontecido. Creio que essa negativa ainda está mantida. Basto passou a elevar muito a temperatura de sua retórica contra Cunha quando passou a ter um segundo delator premiado: justamente Julio Camargo, ex-cliente de Catta Preta — aquele que mudou radicalmente sua versão sobre o agora presidente da Câmara. Uma investigação, aqui ou em qualquer lugar, não pode ser um arranjo de versões, de sorte a compor uma narrativa ao gosto daquele ou daqueles que têm o poder de lhe dar a redação final. Assim, o primeiro ato de disciplinamento tem de dizer respeito ao número de clientes em delação premiada que pode ser abrigado por um advogado ou por um escritório. Sugiro: a cada caso, apenas um!!! Que aquele escritório fechado pela doutora Beatriz fosse uma espécie de indústria de delações, isso parece evidente. E, como se nota, estimular um bandido a entregar seus comparsas rende bons frutos. Indagada se é verdade que recebeu R$ 20 milhões pelas nove delações, ela disse que não chegou “nem à metade”. Se tivesse dito “nem a um terço”, seria abaixo de “R$ 6,7 milhões”. Não tendo sido “nem a metade”, dá para chutar um R$ 8 milhões, R$ 9 milhões. É um bom dinheiro para submeter as versões a um arranjo. Em Hollywood, só roteiristas de primeiro time recebem isso tudo. A delação não pode ser também uma “obra aberta”. Há de haver o momento solene da tomada do depoimento e da resposta dada. O benefício, segundo se entende, só pode advir de o depoente dizer a verdade, mas não quando lhe der na veneta. Se, no tal momento solene, ele mentir, não há mais como lhe dar o benefício caso a verdade surja da árvore dos fatos, não de sua confissão. Ou, por óbvio, a coisa vira a festa do caqui: o delator vai ajustando a sua versão à medida que isso se torna necessário. Em vez de ser beneficiado porque disse a verdade, ele extrai seus benefícios das mentiras convenientes que conta. Eu me orgulho muito de contar com o respeito de advogados das mais variadas correntes do direito — com a exceção provável daqueles que desprezam os códigos escritos, pactuados na democracia, e entendem que o direito sai do alarido de grupos militantes. Operadores da área das mais variadas correntes e ideologias reconhecem, e isso me honra, o meu apreço pela defesa. Sempre tive. É assim desde que me ocupo de temas públicos. Compreendo o fundamento básico de que, diante do estado acusador, é preciso assegurar as garantias para o indivíduo. Por essa razão, o estado tem de garantir a privacidade da relação entre o advogado e o investigado, acusado ou réu. É papel de um defensor tentar descaracterizar as evidências que o ente acusador apresenta contra o seu cliente. Mas atenção! Não é prerrogativa de um advogado mentir de forma deliberada a depender do rumo dos ventos — em especial quando está em curso um acordo de delação premiada. Voltemos aos oito de Beatriz. Se Julio Camargo pôde mentir, antes ou agora, com tanta desfaçatez sobre o pagamento de propina a Eduardo Cunha, por que devemos confiar necessariamente na versão apresentada pelos demais clientes que estavam sob seus cuidados? A sombra da suspeição não acaba se estendendo aos demais casos? Se queremos que a delação premiada passe a ser um instrumento realmente útil à verdade, esse procedimento tem de estar protegido da ação deletéria de certo profissional que mais põe em risco uma operação saneadora do que colabora com ela. O antigo advogado de porta de cadeia, uma caricatura, não pode ser substituído pelo advogado de porta de Ministério Público. É bom que a OAB e o Parlamento comecem a pensar essa questão, propondo uma regulamentação em benefício da verdade e contra a impunidade. Por Reinaldo Azevedo

Eduardo Cunha faz o certo e mobiliza Câmara dos Deputados para interpelar a advogada Beatriz Catta Preta

Eu não estou nem aí, pouco me importa e pouco importa ao País, se Júlio Camargo, ex-cliente de Beatriz Catta Preta, é o homem que acusa Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara. O que me interessa é que uma advogada, na posse perfeita de suas faculdades mentais e profissionais, disse ao Brasil, no Jornal Nacional, que está sendo ameaçada por integrantes da CPI do Petrolão. Não só ela. Também a sua família estaria em risco, disse. E aí fez o anúncio espetacular: vai até deixar a advocacia por isso. Mas quem ameaça? Como? Isso ela não contou. Se outros perderam o senso de proporção e de limite, estou entre os que não perderam. A acusação, como foi feita, sem nomes, pesa contra um dos Poderes da República, de que a CPI é um dos mais caros instrumentos. Existe alguma prova, algum indício, algum elemento circunstancial? Foi por intermédio de telefonema, SMS, mensagem pelo WhatsApp, e-mail, uma pomba com a cabeça arrancada deixada na caixa do Correio? Foi recado de alguém, amigo ou inimigo? De quem? Foi a simples convocação para a CPI que fez a doutora mudar até de profissão — ela ainda não anunciou qual será a sua nova ocupação? Sugiro a Escolinha do Professor Raimundo de Roteiristas da Globo… Pois bem. o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse no sábado, por intermédio do Twitter, que vai acionar a Procuradoria Parlamentar da Casa para interpelar judicialmente Beatriz. É o mínimo que ele tem de fazer, ainda que não se chamasse Eduardo Cunha, mas J. Pinto Fernandes. Trata-se de um dos Poderes da República, caramba! Imaginem se alguém diz no Jornal Nacional que está sendo ameaçado pela Presidência da República. Acontece o quê? Ou pessoalmente pela presidente? E que se note: ela não disse o nome de Cunha, mas tudo era claro demais. Tem de interpelar, sim! Ela tem de dizer os nomes. “Ah, gente! Cunha já tem uma lista imensa de cadáveres nas costas; é preciso tomar cuidado!!!” Mas ele tem? Se há partidos e lideranças com cadáveres no armário (há?), certamente não são o PMDB e o presidente da Câmara. Se ele cometeu crime e recebeu propina, que se dane, a exemplo de outros ladrões nessa história. Mas a produção de provas há de seguir caminhos mais ortodoxos do que esse, não é? Beatriz é penalista e deve saber a enormidade que praticou ao conceder a entrevista, pressionada sei lá por quem ou por quê. Escreveu Cunha: “A acusação atinge a CPI no seu conjunto e a Câmara como um todo, devendo ela esclarecer ou ser responsabilizada por isso”. Irretocável! É isso mesmo. Eu havia escrito pelo menos quatro textos contra a convocação de Beatriz pela CPI — antes de ela conceder aquela entrevista. Depois dela, agora eu sou um ferrenho defensor de sua ida à comissão. Não para revelar quanto ganha e a origem do dinheiro dos clientes, mas para dizer quem a ameaçou e como se deu a ameaça. Cunha negou ainda que organize uma pauta-bomba para a volta do recesso: “A tentativa de colocar nas minhas costas uma chamada pauta-bomba para prejudicar as contas públicas não tem o menor sentido. Tenho absoluta consciência do momento de crise econômica e sempre me pautei por posições contrárias ao aumento dos gastos públicos”. Ele criticou ainda a incapacidade do governo de cortar gastos: “Mesmo que para a economia isso não fosse tão significativo, o exemplo seria um importante sinal para a sociedade”. Beatriz se encalacrou. Ou revela nomes e arca com as consequências, ou diz que estava apenas contando uma mentirinha no Jornal Nacional, numa entrevista que foi usada para passar dois recados:
a: não vai fugir do Brasil;
b: vai deixar a advocacia.
Recados enviados a quem? Àqueles que supostamente a ameaçaram? Não pode ser? A seus admiradores? Não pode ser. Seria ao Ministério Público, com quem trabalhou com tanta intimidade nesses dias? Aguardamos o depoimento. Por Reinaldo Azevedo

Família de Renato Duque contrata advogado para negociar delação premiada


A família do ex-diretor de Serviços da Petrobras, o petista Renato Duque, contratou oficialmente nesta sexta-feira o escritório do advogado Marlus Arns, de Curitiba, para que ele negocie com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal os termos de um acordo de delação premiada. Segundo o próprio advogado, que conduziu a delação dos ex-executivos da Camargo Corrêa, Eduardo Leite e Dalton Avancini, as reuniões de Duque com o Ministério Público Federal ainda não ocorreram, mas as conversas devem ser iniciadas a partir da próxima semana. O ex-diretor está preso, em Curitiba, desde março deste ano. Os atuais advogados do petista Renato Duque, Alexandre Lopes e Renato de Moraes, devem deixar o caso. Renato Duque apresentará aos investigadores uma lista de temas sobre os quais estaria disposto a contribuir com informações para a força-tarefa que investiga corrupção na Petrobras. Para que a delação seja aceita, o ex-diretor deve apresentar colaborações para as ações penais e inquéritos em curso, que o envolvem diretamente, mas também apresentar novos fatos que ajudem a Polícia Federal e o Ministério Público Federal a apurar crimes de corrupção envolvendo a estatal. Em troca, o dirigente teria sua pena reduzida, em caso de condenação. Apontado por petistas como diretor indicado pelo ex-ministro José Dirceu para o cargo, o que o ex-ministro nega, Duque é acusado de chefiar um dos grupos que fraudava licitações em benefício de empresas que pagavam propina a ele e ao PT. Sua relação com o esquema de corrupção na estatal foi denunciado por seu ex-braço direito e um dos delatores da Lava-Jato, o ex-gerente de Engenharia Pedro Barusco. Nesta sexta-feira, a Justiça Federal aceitou denúncia contra Duque e os empresários Júlio Camargo e João Antônio Bernardi, por crimes como corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.

As denúncias de Marcos Valério

Claudio Dantas - o nosso Claudio Dantas - diz na IstoÉ: "Aos poucos vão se confirmando as denúncias do publicitário Marcos Valério feitas em depoimento ao MP em 2012. Já há provas do empréstimo feito pelo pecuarista Bumlai no banco Schahin ­supostamente para comprar o silêncio ­sobre a morte de Celso Daniel, e registro da possível conta usada pelo PT para receber propina da Portugal Telecom no exterior". Essa é uma trama que será seguida em O Antagonista.

Marina Silva acha golpismo pedir o impeachment de Dilma, mas defende a saída de Eduardo Cunha

Marina Silva concedeu uma entrevista à Folha deste domingo. Como de hábito, seu pensamento parece ter atingido o lugar da santidade, só permitido aos mártires. Ela é contra o impeachment de Dilma Rousseff, mas quer o afastamento de Eduardo Cunha. E lamenta, coitadinha!, que tenha de enfrentar tanta incompreensão.


Diz a pensadora, depois de constatar que o País, sob Dilma, sofre perdas econômicas e sociais:
“Não podemos, em hipótese alguma, colocar em xeque o investimento que fizemos na democracia. Você não troca de presidente por discordar dele ou por não estar satisfeito. Se há materialidade dos fatos, não há por que tergiversar. Se não há, o caminho doloroso de respeito à democracia tem que prevalecer.”

Pela ordem:
1: quem está tentando trocar de presidente “só por discordar dela”?:
2: quem está disposto a pôr em xeque o investimento na democracia?;
3: os que pedem a saída de Dilma o fazem apontando “a materialidade dos fatos”.

Marina Silva já leu a Lei 1.079?

E que papo é esse de “caminho doloroso da democracia”? Doloroso, minha senhora, é abrir mão das faculdades que a democracia oferece — entre elas, o impeachment.

E ela prossegue:
“Alguns políticos estão tentando instrumentalizar a crise, em vez de resolvê-la. Na democracia, não se resolve a crise passando por cima do processo constitucional.”

É?

Marina é minha candidata, a partir de agora, a “resolver a crise, em vez de instrumentalizá-la”. E está obrigada a dizer quem está tentando “passar por cima do processo constitucional”. Ela não empregou a palavra “golpistas” para classificar os que defendem o impeachment, mas é o que acha que são: golpistas. Ou merece outra designação quem “passa por cima do processo constitucional”?

Com Eduardo Cunha, no entanto, ela é mais severa. Diz: “Uma vez denunciado, é óbvio que ele deve ser afastado, sem que isso seja um pré-julgamento”. Entendi. Não é pré-julgamento, mas ele tem de sair. Noto que Marina nem mesmo esperaria o Supremo aceitar ou recusar a denúncia: bastaria Rodrigo Janot estalar os dedos.

O mesmo Janot que não demonstrou, até agora, nem coragem nem autonomia para pedir ao menos a abertura de um inquérito contra Dilma, conforme autorizam a Constituição e a jurisprudência do Supremo. E Marina deve pensar o mesmo sobre Renan Calheiros, presidente do Senado. Nota à margem: ainda que o tribunal aceite denúncia contra ambos, não são obrigados a deixar os respectivos cargos.

Dilma deveria demitir Aloizio Mercadante e levar Marina para a Casa Civil. Ela saiu do PT, mas o PT obviamente não saiu dela.

E falta que a líder do ainda inexistente “Rede” aponte uma saída, certo? Sim, ela tem a resposta. Há, segundo disse, dois trilhos:
1: o da investigação, que tem de continuar autônoma…;
2: “o outro trilho é dos rumos da nação”.

Ah, bom! Agora ficou fácil!

Marina acha que, caso se encontrem os “rumos da nação”, o resto está resolvido.

Que bom!

Deve ser a isso que ela chama não ser sem nem situação nem oposição, mas “ter posição”. Como diz a minha mulher, “dê um problema difícil para Marina, que ela lhe devolve um trocadilho”. Por Reinaldo Azevedo