domingo, 6 de setembro de 2015

Teori manda ao Paraná investigações sobre campanhas de Lula e Dilma

O ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, desmembrou parte das investigações referentes à delação premiada do dono da UTC Ricardo Pessoa e remeteu para a primeira instância, na Justiça Federal do Paraná, citações à campanha de Lula em 2006 e da presidente Dilma Rousseff em 2010. Em sua delação, Ricardo Pessoa disse ter feito contribuições clandestinas para a campanha à reeleição do ex-presidente Lula em 2006. Além disso, Ricardo Pessoa também teria dito, segundo relatos, que fez repasses ilegais de recursos ao ex-deputado José de Filippi Júnior (PT-SP), que foi tesoureiro da campanha de Dilma em 2010 e de Lula em 2006. Por isso, esse desmembramento deve levar as investigações sobre Filippi Júnior à primeira instância, já que ele não tem foro privilegiado.

Com isso, o Ministério Público Federal no Paraná passa a ser responsável por essa parte da investigação, cujo juiz que a conduzirá será Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba. A campanha de Dilma em 2010 já está sendo investigada no Paraná, por causa de relato do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, também delator. Costa afirmou que providenciou para a campanha o repasse de recursos provenientes do esquema de corrupção da Petrobras, a pedido do ex-ministro Antônio Palocci. Palocci nega a acusação. Teori manteve no Supremo a investigação sobre o ministro da Comunicação Social Edinho Silva, que foi tesoureiro da campanha à reeleição de Dilma no ano passado. Sobre ele, Pessoa afirmou que foi coagido para fazer doações à campanha petista.

Todos contra Lula e Dilma

Teori Zavascki e Rodrigo Janot devem ter sido tocados pelo espírito republicano às vésperas do 7 de setembro. Após o pedido de investigação do PGR sobre a delação de Ricardo Pessoa, o ministro do Supremo tomou várias iniciativas. O Antagonista resume: Zavascki abriu inquérito no STF contra a campanha de Dilma, enviou parte da delação para abastecer as ações movidas pelo PSDB no TSE e outra parte encaminhou ao juiz Sérgio Moro para que investigue as campanhas de 2010 e 2006 de Dilma e Lula, respectivamente. Como dissemos aqui mais cedo, Dilma é uma presidente sub judice. E Lula, bom, ele já deveria estar preso.

Extra: Delação de Pessoa no TSE

O Antagonista foi informado por um ministro do Supremo que Teori Zavascki decidiu compartilhar a delação de Ricardo Pessoa com o corregedor do TSE, João Otávio de Noronha, relator de duas ações movidas pelo PSDB contra a campanha de Dilma. Noronha, assim, não terá mais "o empecilho" alegado por ele para não emitir seu voto até o fim do mês.

Em nota, Aécio Neves sai em defesa de Aloysio Nunes

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) divulgou neste domingo, 6, nota em defesa do colega tucano e candidato a vice-presidente em sua chapa na eleição do ano passado, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), cuja campanha de 2010 ao Senado é acusada de ter recebido dinheiro ilegalmente da construtora UTC. Conforme Aécio Neves, o colega de partido é "um dos mais combativos líderes da oposição no País". "O senador Aloysio Nunes, cuja biografia é reconhecida e respeitada até mesmo por seus adversários, foi um dos primeiros a denunciar toda essa operação da qual, por razões óbvias, jamais poderia ter participado", diz a nota.


Aécio Neves ainda faz críticas ao PT. "O PSDB, apesar de não temer qualquer tipo de investigação, chama a atenção para o risco dessas investigações desviarem-se do seu foco principal, que é a responsabilização daqueles que, no PT e partidos aliados, montaram um complexo esquema de corrupção que assaltou os cofres da Petrobrás e financiou a manutenção desse grupo no poder", diz ele no comunicado: "Aguardaremos com serenidade o desenrolar desse processo, atentos a que ele não fuja de seu real objeto". O ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de inquérito contra Aloysio Nunes Ferreira e contra o ministro-chefe da Casa Civil, o petista "aloprado" Aloizio Mercadante, e o ministro da Comunicação Social, o também petista Edinho Silva (tesoureiro da campanha da petista Dilma Rousseff). A decisão atendeu pedido feito pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Os três foram citados pelo empresário Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, em delação premiada. Ricardo Pessoa declarou que foram feitos repasses milionários para as campanhas eleitorais do aloprado petista Aloisio Mercadante ao governo paulista, em 2010, e para a campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff, da qual Edinho Silva foi tesoureiro. 

Conare aceita o pedido de asilo do opositor boliviano Roger Pinto Molino, senador perseguido pela ditadura do indio cocaleiro Evo Morales

O Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão do Ministério da Justiça, aceitou o pedido de asilo do ex-senador boliviano Roger Pinto Molina, de 55 anos, opositor do governo Evo Morales que vive há dois anos no Brasil, depois de passar 15 meses na embaixada brasileira em La Paz. Na última semana, autoridades do país vizinho divulgaram uma carta para cobrar a extradição de Molina. “A concessão do refúgio é uma resposta orgânica do governo brasileiro às ações de Evo Morales”, avaliou o político. Em 2012, o ex-senador entrou na representação diplomática brasileira para escapar da prisão por supostos crimes contra o Estado. Após viver asilado durante 15 meses num pequeno quarto da representação, conseguiu apoio do diplomata brasileiro Eduardo Saboia para deixar, sem consentimento de autoridades bolivianas, o país, em uma viagem de carro de 22 horas, escoltado por fuzileiros da embaixada, até Corumbá, no Mato Grosso do Sul. 


Desde que passou a morar em Brasília com apoio de parlamentares de diferentes partidos, Molina tem acusado o governo o índio cocaleiro Evo Morales de perseguição, intolerância contra outros opositores e manipulação da Justiça contra os adversários. Também acusou o governo do Estado de Pando, aliado de Morales, de manter relações com cartéis de cocaína. O governo da Bolívia, por sua vez, acusa o ex-parlamentar de praticar crimes de corrupção. “Eles chegaram a me condenar pelo corte de duas árvores, praticado por outras pessoas, em uma propriedade que eu tinha”, afirma: “Nunca conseguiram sustentar as acusações ao longo do processo do Conare". A história de Molina deixou a esfera política para atingir uma questão de direitos humanos. A defesa de Eduardo Saboia, que organizou a retirada do ex-senador de La Paz, rebateu a crítica de que o diplomata não comunicou a seus superiores sobre a operação e argumentou que os governos demoraram a encontrar uma solução para o caso. Molina teria cogitado suicídio. Na semana passada, Molina comemorou outra decisão do Brasil. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) lhe concedeu autorização para pilotar helicópteros. Formado em direito, ele pretende trabalhar no serviço de transporte aéreo, atividade que tinha como hobby na Bolívia. Atualmente, Molina vive em Brasília com a mulher Blanca Inez, de 55 anos, a filha Priscila Pinto, de 32 anos, e os netos Priscila Gusmán, de 13 anos, e Roger Miguel, de seis anos. Outros dois filhos do ex-senador ainda esperam a concessão do asilo. Molina relata que a decisão do governo brasileiro acaba com a sensação de incerteza e receio de ter que deixar às pressas o País, enfrentada nos dias em que mora em Brasília. “Agora, vou pensar em reconstruir a minha vida e a vida da minha família”, ressalta: “Não é fácil para quem tem mais de cinquenta anos abandonar seu país e recomeçar". O ex-senador diz que os encontros com autoridades do Ministério da Justiça nestes últimos meses mostrou uma insatisfação em relação a Evo Morales, especialmente na retirada de brasileiros de sítios e fazendas do território boliviano e na área de combate ao narcotráfico. A operação de La Paz custou a Eduardo Saboia uma suspensão de 20 dias, em um processo no qual foi ameaçado de ser expulso do serviço público. O episódio culminou na demissão do então ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, que enfrentava insatisfação do Planalto com relação ao seu trabalho na pasta. Molina e Eduardo Saboia mantêm relação de amizade. O boliviano contou que, no final do ano passado, andava de bicicleta pelas margens do Lago Paranoá, em Brasília, quando viu um jovem cair na água e pedir socorro. Outros dois colegas do rapaz ficaram sem reação. Molina, então, se jogou no lago. Fora da água, o jovem teria abraçado o político para agradecer: “Foi quando lembrei que não tive essa mesma atitude quando o Sabóia, na época, salvou a minha vida".

Boneco Pixuleco promete aparecer no desfile de 7 de Setembro em Brasília, na frente da petista Dilma Rousseff


Os movimentos que defendem o impeachment da presidente Dilma Rousseff se reúnem no feriado desta segunda-feira (7), em Brasília, para protestar novamente contra o governo petista. Por conta dos altos gastos para realizar as manifestações antigoverno do último dia 16, os organizadores decidiram concentrar seus esforços no Distrito Federal e não vão bancar a estrutura de protestos em outras cidades, como aconteceu em agosto. Em Brasília, a manifestação, marcada para as 9 horas, deve ocorrer na porta do Museu da República, perto da Esplanada dos Ministérios, por onde passará o desfile oficial de Sete de Setembro, que terá a presença de Dilma. O boneco inflável de Lula vestido de presidiário, apelidado de Pixuleko, será montado no local. Um segundo boneco, de Dilma, foi encomendado e também deve ser exposto na ocasião. Ainda foram comprados 300 "mini Pixulekos" que serão distribuídos para os manifestantes. Os organizadores afirmam que pretendem fazer um evento significativamente menor do que as manifestações de 16 de agosto e não dão uma previsão de público. "Será só um ato simbólico. Investimos muito no dia 16 e ficamos um pouco descapitalizados", explica Heduan Pinheiro, integrante do movimento Brasil Melhor. Protestos em outras cidades dependerão de manifestações espontâneas de membros dos movimentos e simpatizantes da causa. Em São Paulo, um grupo se encontrará às 8 horas no Anhembi, onde uma hora mais tarde ocorre o desfile oficial de Sete de Setembro, organizado pela Prefeitura. O ato em Brasília é organizado pela Aliança Nacional dos Movimentos Democráticos, que reúne grupos pro-impeachment. O Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua, dois dos maiores grupos anti-Dilma, não fazem parte da aliança e não têm divulgado o evento de Sete de Setembro. Rogério Chequer, líder do Vem Pra Rua, afirmou, no entanto, que o movimento participará da manifestação.

Incêndio em parque da Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, entra no seu quarto dia

O fogo na área de preservação ambiental do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, entrou neste domingo (6) no quarto dia. Cartão-postal da região, a cachoeira Véu de Noiva está fechada. As chamas chegaram a consumir uma linha de mais de 5 km dentro do parque. "(Mas) Ela já diminuiu bastante. Conseguimos evitar que o fogo permanecesse no planalto, de onde poderia se espalhar por áreas prioritárias de conservação do parque", afirmou por nota o coordenador de campo do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), Luiz Gustavo Gonçalves. 

Segundo ele, o combate noturno também foi mais efetivo, pois a temperatura ambiente é menor e a umidade relativa do ar maior, o que ajuda para apagar as chamas. Em campo estão 40 brigadistas do ICMBio, 25 do Ibama, gestor do parque, e 20 bombeiros apoiados por quatro helicópteros e um avião. Os dois helicópteros disponíveis estão transportando as equipes e a alimentação até as zonas de fogo, distantes em média quatro horas a pé da sede do parque. O avião modelo Air Tractor lança água em pontos estratégicos sincronizado com a equipe de trabalho terrestre. O incêndio começou no final da tarde de terça-feira (1) na Morraria do Coxipó do Ouro, entorno do Parque Nacional. Na madrugada de sexta (4) invadiu a unidade de conservação. O fogo atingiu a região sul e sudoeste do parque. Há também um foco na região noroeste sendo monitorado. Desde quinta-feira (3), com o deslocamento das equipes para o território do incêndio, a visitação no Véu de Noiva, o atrativo mais visitado do parque, está suspensa. Segundo a coordenação do ICMBio, o fechamento temporário se faz necessário porque o estacionamento da cachoeira está sendo usado para pousos e decolagens dos helicópteros. Além disso, a equipe que toma conta do Véu de Noiva foi deslocada para combater o incêndio. Pelo menos 85 pessoas participam do combate ao incêndio neste domingo. A sede administrativa é base para acampamento das equipes externas, além de abrigar toda a logística de campo.

Artigo de Fernando Henrique Cardoso - O grito parado no ar

A vertigem da política brasileira é tamanha que não dá vontade de ler as páginas dos jornais que dela se ocupam. O pior é que acabo caindo na armadilha de falar sobre a política corrente, a respeito da qual já quase tudo foi dito. Se eu escrever, como teria vontade, sobre a crise (horrorosa) da Venezuela e o mutismo do Brasil diante dela, ou sobre a tragédia das migrações dos fugitivos da guerra ou da miséria que encontram as portas fechadas na Europa, pode-se imaginar que estou me esquivando de enfrentar o desafiador cotidiano brasileiro... Sendo assim, vamos lá, outra vez. Há poucos dias escrevi uma frase no meu facebook que resumia a angústia com que nos defrontamos. Diante do que vem acontecendo, disse: ou a presidente Dilma renuncia ou assume uma inesperada liderança nacional. Caso contrário, acrescentei, continuaremos no ramerrão deixando que a operação Lava Jato e a crise econômica sacudam o País ao sabor de cada nova delação ou de cada nova estatística publicada. Deixei de lado, de propósito, os pedidos de nulidade das últimas eleições presidenciais, que correm no Tribunal Superior Eleitoral e um eventual pedido de impeachment por conta da eventual rejeição das contas da União pelo Tribunal de Contas. Para minha surpresa, a leitura quase unânime foi a de que eu “mudara de posição” e pedia a renúncia da presidente. Os seus torcedores (poucos), alguns líderes do PT à frente, não precisavam de mais nada para me “desmascarar”: afinal, quem é esse senhor para ousar pedir a renúncia da presidente, quanta insolência! Também os que defendem o fim antecipado do atual mandato presidencial, não viram no que escrevi senão o apelo à renúncia, um ato exclusivo de quem ocupa o cargo. Por que me referi à renúncia? Porque, no fundo, é este o grito parado no ar. Não foi a alternativa única que coloquei, mas foi a que, subconscientemente, à maioria dos que me leram pareceu ser a solução mais simples e menos custosa para sairmos do impasse. Não me parece a mais provável, dada a personalidade de quem teria de fazer o gesto de grandeza. É certo que a dinâmica das renúncias raramente se move por impulsos íntimos. São as condições políticas que as suscitam. Teremos chegado a este ponto? Ao colocar as alternativas respondi implicitamente que ainda não. Entretanto, como a vida segue e não se vê a presidente assumir as rédeas do governo nem muito menos refazer seus laços com a sociedade, o mais provável é que os dois motores da conjuntura atual, ambos sem o controle dos políticos, continuem a ceifar esperanças: os processos judiciais, que ao implicar uns e outros e cada vez mais numerosos, vão enterrando a aspiração à impunidade de gregos e troianos; e a crise econômica que destrói empregos, arrasa lucros, aumenta o sofrimento do povo e não permite apontar para um horizonte de retomada de crescimento. Mal comparando com conhecidos textos sobre este tipo de conjuntura, têm-se a impressão de que o antigo já morreu, e o novo ainda não surgiu. Este é o impasse. De que o governo cambaleia, não há dúvidas. A cada semana uma demonstração nova, a última foi o desencontro com a “nova” CPMF. Mal começavam os defensores do governo a justificá-la, de repente, a presidente diz que é e sempre foi contra a CPMF... Se não há CPMF ou que nome se queira dar ao tributo, como fechar as contas no Orçamento? E lá vem nova barbeiragem: mostra-se o déficit e o Congresso que se arranje! O poder presidencial já se tinha diluído nas mãos de um ministro da Fazenda, que não reza pela cartilha da presidente, e nas mãos do vice-presidente, que é de outro partido. Por acaso desapareceu de nossa Constituição a separação entre as obrigações do Executivo e as do Legislativo? Será isso a antecipação de um debate salutar sobre a implantação, em futuro não muito longínquo, do parlamentarismo? No presidencialismo, contudo, cabe ao Executivo apontar os caminhos, e ao Legislativo corrigi-los, mas não desenhá-los. Não tem cabimento no presidencialismo tal tipo de delegação de poderes. O fato é que este ziguezague político é prenúncio de que o fracasso atual não é só o de um governo — que inegavelmente tem a responsabilidade maior por ele —, mas de um sistema político que, mal manejado — por falta de traquejo, cegueira ideológica ou incompetência administrativa (que vem de mandatos anteriores do PT, diga-se) —, acabou por se esgotar e carregar consigo as finanças públicas. Disso se trata agora: o país quebrou, a economia vem sendo arrastada para o fundo do poço, e a desilusão da sociedade só faz aumentar. Sendo assim, a solução da crise não decorrerá apenas da remoção do obstáculo mais visível a um reordenamento político, simbolizado por quem exerce o Executivo e pelo partido de apoio ao governo, mas da formação de um novo bloco de poder que tenha força suficiente para reconstruir o Estado brasileiro, livrando-o do endividamento crescente e já contratado pelas leis aprovadas. Bloco de poder não é um partido, nem mesmo um conjunto deles, é algo que engloba, além dos partidos, os produtores e os consumidores, os empresários e os assalariados, e que se apoia também nos importantes segmentos burocráticos do estado, civis e militares. Não é de um golpe que se precisa, dele não se cogita, porque inaceitável. Precisa-se do reconhecimento explícito da situação pré-falimentar em que nos encontramos. Precisa-se de dispositivos constitucionais que regulem a expansão do gasto público, de regras que limitem o endividamento do Estado, assegurando o equilíbrio de longo prazo das contas públicas, em favor do investimento, tanto público como privado. Precisa-se de uma reforma profunda das regras eleitorais e partidárias que, sem grandes complicações, reduza a proliferação de falsos partidos, moralize o financiamento eleitoral e diminua os gastos de campanha. Precisa-se de um pacto federativo que, reformando o sistema tributário, nem sufoque os contribuintes nem deixe os estados à míngua. Para isso é preciso rever o que a sociedade espera do governo e está disposta a pagar para que o estado possa melhorar a vida do povo.

Artigo de Roberto Pompeu de Toledo - A casa da Mãe Joana

Ao deixar a presidência do conselho de administração da Petrobras, em março de 2010, ao mesmo tempo em que deixava a chefia da Casa Civil do governo Lula para candidatar-se à Presidência da República, Dilma Rousseff declarou-se “muito feliz” pelo desempenho da empresa nos sete anos em que ocupou o cargo. “É um orgulho passar pelo conselho da Petrobras e ainda mais presidi-lo. Você tem uma nova visão de Brasil, vê a riqueza do Brasil”, disse ela, segundo registrou o jornal O Globo (19/3/2010). Hoje a própria Dilma deve saber quanto viu tudo errado. Sua “nova visão de Brasil” falhou em não alcançar o caso dos navios-sonda Petrobras 10 000 e Vitória 10 000. Sua visão da riqueza do Brasil falhou em identificar a direção dos bolsos a que tanta pujança escoava. O caso dos navios-sonda está detalhado na denúncia do procurador Rodrigo Janot contra o deputado Eduardo Cunha. Somados, os dois navios custaram 1,2 bilhão de dólares ─ quantia equivalente à da compra da Refinaria de Pasadena ─ e resultaram igualmente inúteis. É uma injustiça que, até agora, o Petrobras 10 000 e o Vitória 10 000 tenham merecido menos atenção do que a refinaria. Da operação resultaram 40 milhões de dólares em propinas, distribuídas, segundo a denúncia, entre o diretor da área internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, o “lobista” Fernando Soares, vulgo Fernando Baiano, e o PMDB, representado por Eduardo Cunha. Detalhes saborosos embasam a denúncia. Os dois navios foram contratados separadamente. A história do primeiro deles, o Petrobras 10 000, começa no primeiro semestre de 2005, e não começa dentro da estatal, com o anúncio da decisão de fazer o negócio e os preparativos para a respectiva concorrência, como seria de esperar. Começa quando a empresa japonesa Mitsui toma conhecimento de rumores de que a Petrobras precisava de um navio para prospectar na costa da África. A Mitsui contata seu representante no Brasil, Júlio Camargo, que por sua vez recorre a Fernando Baiano, conhecido por sua “íntima amizade” (assim diz a denúncia) com o diretor Cerveró, para saber se os rumores procedem. Feliz casualidade! A Petrobras estava, sim, justamente pensando em comprar um navio, para operar na África. Seguem-se meses de entendimentos entre Camargo, Cerveró e Baiano, com o objetivo de driblar a licitação e entregar a construção do navio à coreana Samsung, parceira da Mitsui. Sucesso! Não se enfrentou nem o incômodo de submeter os trâmites com antecedência à diretoria. Nem a diretoria se incomodou em receber tudo já mastigado. Em julho de 2006 foi assinado o contrato, no valor de 586 milhões de dólares. Ninguém teve interesse em saber se haveria melhor preço no mercado. Se foi tudo tão fácil, por que não tentar um repeteco? Já em setembro daquele mesmo ano a diretoria internacional da Petrobras se dá conta de que precisa de um segundo navio-sonda, agora para atuar no Golfo do México. Dessa vez o percurso é inverso. Fernando Soares é que, em nome de Cerveró, procura Júlio Camargo. A intenção era, percorrendo o mesmo processo expresso, sem concorrência nem questionamentos da diretoria, entregar o contrato à mesma Samsung. Sucedem-se as reuniões, na sala de Cerveró, com a presença de Baiano e Camargo. Ao ser apresentado o contrato à diretoria, alegou-se que encaminhá-lo à mesma construtora geraria “economia de escala e vantagens operacionais”. Curioso é que, com tamanhas vantagens, o preço ficava maior ─ 616 milhões de dólares. Ninguém estranhou. O contrato para o navio batizado de Vitória 10 000 foi assinado em março de 2007. Nenhum dos navios cumpriu sua suposta missão. O primeiro encontrou só solos secos em Angola e foi recolhido ao Brasil. O segundo não teve melhor sorte no Golfo do México. O grande sucesso foi a prospecção de ambos nos cofres da Petrobras. O caso é exemplar da casa da mãe joana em que a Petrobras se converteu sob Lula presidente da República, Dilma sucessivamente ministra de Minas e Energia e da Casa Civil (além de presidente do conselho de administração), e José Sérgio Gabrielli presidente da empresa, nenhum dos quais viu nada. O caso de Gabrielli é prodigioso. A denúncia do procurador, vasculhando os registros da portaria da Petrobras, constata que Soares entrou e saiu sete vezes do prédio, entre 11h09 e 18h41 em 14 de setembro de 2006, para citar apenas um dos dias de frenéticas negociações. Trabalhando no mesmo andar, ele não viu nada. Ou, se viu, não achou nada de mais no entra e sai.

Artigo de Fernão Lara Mesquita, no jornal O Estado de S. Paulo - A caminho do confronto

Ao fim de oito meses procurando alternativas em vão até Dilma Rousseff já sabe que não há como o Brasil voltar ao mundo dos vivos sem reduzir drasticamente o tamanho do estado ou, ao menos, dar provas da decisão de ir nessa direção. Mas como o negócio do PT não é o Brasil, é o PT, ela acaba de fazer exatamente o contrário. Como se pôde ver nas últimas “manifestações”, o partido está reduzido ao contingente dos funcionários que colonizam a máquina pública e às proto-milícias que, em recente demonstração de força dentro do palácio presidencial, avisaram que estão prontos a usá-la para nos arrancar o que for necessário para permanecer onde estão. É emblemática, portanto, a atitude dessa senhora de se aferrar tanto mais ao cargo quanto mais claro fica que a crise é exatamente essa insistência insana. Ao assumir a decisão de, com o país desmoronando, fritar Joaquim Levy para insistir no beco sem saída de uma equação confessadamente insustentável, o PT está sinalizando que desistiu da via política; vai partir para a outra. O Congresso Nacional também está ciente, de cabo a rabo, de que não há alternativa para a cirurgia de emergência do estado que não implique a morte da galinha dos ovos de ouro. Mas recusa-se a pegar a bola que a Presidência lhe passou. É uma atitude temerária. Devolvê-la sob a forma de uma imposição da Casa que desse ao governo o álibi para algum tipo de ação menos inescapavelmente suicida pode ser a última chance do Brasil evitar o pior. Enquanto for preciso eleger-se é a narrativa, e não as verdades que não aparecem na televisão, que pauta o comportamento dos políticos. As velhas raposas do Congresso – de situação e oposição – não perderam o faro. Passaram do alinhamento explícito com a minoria privilegiada que ajudaram a constituir para apenas uma resistência surda à afirmação da única alternativa para deter a crise. Já entenderam o que, mais cedo ou mais tarde, terá de ser feito, mas precisam se sentir respaldados para fazê-lo agora. Enquanto o país continuar contando como certo e pacífico que “rigidez orçamentaria” é um dado inalterável da natureza e, portanto, o seu é o único bolso estuprável da praça, isso não será possível. Já que, como sempre nesses casos, é com empregos e desgraças familiares que essa conta vai ser paga, a imprensa poderia oferecer a contribuição decisiva para dar ao processo a direção e a velocidade que a urgência da situação requer se apeasse da insana “neutralidade” com que passa adiante falsificações e mentiras patentes toda vez que alguém acha conveniente apresentar mais uma a uma redação e fizesse um esforço concentrado para informar à nação com a clássica ferramenta da reportagem quem ganha quanto para produzir o quê dentro e fora do universo estatal; que direitos e deveres têm os pais de família contribuintes e “contribuídos” e como isso afeta a vida de seus filhos; onde está localizada a gordura que resta no país; quais os custos e benefícios para a coletividade de cada alternativa sugerida ou sonegada em função de interesses escusos. Isso poderia desbloquear o caminho para deter o incêndio criminoso que ameaça a segurança nacional. Já para livrar o Brasil da sua miséria crônica, seria necessário encarar “a verdade inteira”, como agora diz querer o PMDB. É do Manifesto Republicano de 1870 esta síntese do expediente com que a monarquia, ameaçada pela revolução democrática de 1831, saiu-se pelo sistema corporativista em que estamos enredados até hoje: “O despotismo colonial procurou desde logo surpreender em uma emboscada política a revolução que surgia no horizonte da opinião (…) Disfarçar a forma, mantendo a realidade do sistema que se procurava abolir, tal foi o intuito da monarquia (…) A liberdade aparente e o despotismo real (…) são as características da nossa organização constitucional”. Não foi diferente a transição do regime militar, sustentado pelas mesmas pessoas que hoje guardam as costas do PT, para a “Nova República”. Há o direito de voto e, para além dele, nada. Mas eleger para a inimputabilidade sem ter o poder de deseleger é distribuir cheques em branco e induzir os fiéis depositários ao estelionato. A Constituição de 1988 não é “moderna” nem, muito menos, “cidadã”, é o diploma oficial da negação da democracia no Brasil. Tem, por enquanto, 250 artigos, incontáveis milhares de parágrafos, 84 emendas “ordinárias” e 6 emendas “de revisão”, quase todas versando sobre as exceções à “igualdade perante a lei” que define esse regime, que criam uma sociedade de castas com múltiplas gradações na camada minoritária dos brasileiros “especiais” no topo da qual imperam, intocáveis, os detentores do poder de outorgar privilégios aos demais, e uma massa de sub-cidadãos, quase súditos, por baixo, cuja única função é sustentá-la. O poder dos demiurgos do topo do “Sistema” é, como o dos imperadores, quase divino. Basta ser tocado por um deles e o bem-aventurado é alçado deste vale de lágrimas e para sempre indultado das consequências do “pecado original”. Fica, pelo resto da vida, dispensado de fazer o mesmo esforço e correr os mesmos riscos exigidos de todos nós na luta cotidiana pelo prato de comida de amanhã. Não existe meio de evitar que tudo apodreça, mantido esse ponto de partida.

Gente do governo da petista Dilma joga toda culpa das pedaladas sobre o Mandrake trotskista Arno Augustin


Onze das 17 autoridades e ex-autoridades do governo Dilma Rousseff chamadas a se explicar sobre as “pedaladas” fiscais elegeram um culpado para os atrasos de repasses aos bancos oficiais: o ex-secretário do Tesouro Nacional Arno Augustin, conforme as defesas protocoladas no Tribunal de Contas da União por ministros, presidentes de bancos oficiais, coordenadores do Tesouro e outros gestores. A maioria jogou a responsabilidade pelo represamento dos repasses no colo do Mandrake trotskista Arno Augustin, que deixou o cargo nos primeiros dias de janeiro deste ano. Três subordinados do então secretário ressaltaram nas defesas entregues que “cumpre ao secretário do Tesouro Nacional estabelecer a programação financeira mensal e anual do Tesouro Nacional”. O argumento foi utilizado pelo subsecretário de Política Fiscal do Tesouro, Marcus Pereira Aucélio; pelo coordenador-geral de Programação Financeira, Marcelo Pereira de Amorim; e pelo coordenador-geral de Operações de Crédito, Adriano Pereira de Paula. Os dois primeiros foram além e afirmaram que as liberações de recursos para o Bolsa Família “estavam relacionadas ao secretário do Tesouro Nacional” e que a responsabilização feita pelo TCU “exorbita suas competências como agente público em face às competências regimentais da Secretaria do Tesouro Nacional”. A responsabilização do ex-secretário foi feita ainda pelo ex-ministro da Fazenda, o petista Guido Mantega, e pelo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Já o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, e a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, informaram ao TCU ter feito sistemáticas cobranças ao Tesouro por repasses. Diante da falta de recursos, os bancos se viram obrigados a arcar com o pagamento de programas sociais como o Bolsa Família, o seguro-desemprego e o abono salarial. O TCU concluiu que a manobra serviu para melhorar artificialmente as contas públicas e enxergou uma operação de crédito nas “pedaladas”, o que infringe a Lei de Responsabilidade Fiscal. Em abril, o tribunal listou 17 responsáveis pelos fatos e determinou que esses gestores deveriam se explicar. A acusação das “pedaladas” passou a integrar o processo que analisa as contas de 2014 de Dilma. A oposição planeja usar um possível parecer pela rejeição para pedir o impeachment da presidente, que ganhou mais tempo para se explicar sobre outras supostas irregularidades no processo. O esvaziamento do processo original, com uma eventual responsabilização concentrada em Arno, pode favorecer o julgamento das contas da presidente. Na véspera da saída do cargo de secretário do Tesouro, em 30 de dezembro de 2014, o Mandrade trotskista Arno Augustin assinou uma nota técnica que atribui ao secretário a palavra final sobre a liberação de recursos públicos aos ministérios e demais órgãos da União. A nota foi interpretada como um gesto em que o Mandrake trotskista Arno Augustin assume a responsabilidade pelas “pedaladas”. Não à toa esse documento integra cinco defesas protocoladas no TCU, entre elas as do ex-ministro Guido Mantega. O ex-secretário, no entanto, afirmou em sua defesa que agiu dentro da legalidade no período em que ocupou o cargo, desde 2007. O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, e seu secretário-executivo, Dyogo Oliveira, foram chamados pelo TCU para explicar portarias que definiram prazos para pagamentos do Tesouro ao BNDES por incentivos em linhas de crédito. As duas defesas têm o mesmo teor: “Os atos materiais de repasses de recursos ao BNDES para a concessão de subvenção econômica na modalidade de equalização de juros eram de competência da Secretaria do Tesouro Nacional e nunca foram de competência da autoridade demandada". Outros três citados pelo TCU — o ex-ministro das Cidades, Gilberto Occhi, atual ministro da Integração Nacional, e dois ex-secretários — lembraram a “responsabilidade” do Tesouro em ressarcir o FGTS por conta do programa "Minha Casa Minha Vida". O tribunal apontou essa falta de pagamentos — R$ 8,2 bilhões em dívidas — como uma “pedalada” e um indício de irregularidade que a presidente Dilma precisou explicar. Praticamente todas as defesas sustentam não ter existido operação de crédito na manobra fiscal. Prevalecendo esta tese, não teria havido infração à Lei de Responsabilidade Fiscal. A defesa de Arno tem 238 páginas. O documento é assinado também pelo advogado-geral da União, Luís Inácio Adams. O Mandrake trotskista Arno Augustin sustenta a legalidade de seus atos “seja porque atendem aos ditames legais e contratuais, seja porque se colocam sob os moldes supralegais de inexigibilidade de conduta diversa”. Segundo o ex-secretário, os bancos não financiaram a União e não houve operação de crédito. 

Super senadores do PMDB atacados pela kriptonita de Angra 3.

Até agora, sabia-se que Pessôa, que se tornou um dos principais delatores da Lava Jato, acusara Lobão de participar do esquema nas obras de Angra 3. Houve menções vagas, também, a negociações entre o cartel do petrolão, com Pessôa à frente, e chefes do PMDB. Muito do que já se conhece da delação de Pessôa, porém, restringe-se às propinas para as campanhas presidenciais do PT em 2006 (Lula), 2010 (Dilma) e 2014 (Dilma novamente), cuja investigação foi pedida sigilosamente pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao ministro relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki. Quase nada se sabe sobre os bastidores – e as provas – da negociação e dos pagamentos de propina das empreiteiras do consórcio de Angra 3 aos senadores do PMDB. Segundo as investigações, se cartel havia entre as empreiteiras, cartel havia também entre os senadores do PMDB. E esse cartel do Senado é o próximo alvo de Janot e sua equipe – uma caça que se desenrolará nas semanas que virão, ameaçando ainda mais a frágil estabilidade política que ainda resta no Congresso, especialmente após a dura denúncia contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, também do PMDB. ÉPOCA obteve acesso ao material de caça de Janot. Trata-se de um conjunto de documentos das investigações da Procuradoria-Geral da República (PGR), da Polícia Federal e da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba sobre a participação dos senadores do PMDB no esquema de Angra 3 – a maioria deles, inéditos. A reportagem também entrevistou investigadores, parlamentares e operadores do PMDB. Dessa apuração, emergem os detalhes desconhecidos do caso que, até o momento, destaca com mais força o envolvimento da trinca do PMDB do Senado – o presidente da Casa, Renan Calheiros, Romero Jucá e Lobão – na Lava Jato. Eles já são investigados no Supremo por suspeita de participação no petrolão. Renan, por exemplo, será denunciado em breve num desses processos. No eletrolão, que mimetizava a roubalheira da Petrobras na Eletronuclear e na Eletrobras, descobre-se não somente que os três chefes do PMDB no Senado são acusados de receber propina – descobre-­se que eles negociaram o pedágio pessoalmente, sem intermediários, como homens de negócio. Nas próximas semanas, Janot pedirá a Teori autorização para investigar Renan e Jucá no caso de Angra 3 – Lobão já é investigado. Entre os investigadores, as últimas semanas foram tensas. Muitos queriam denunciar a turma do PMDB do Senado antes da sabatina de Janot na Casa. Também pressionavam para que o procurador-geral pedisse logo, formalmente, a investigação contra Renan e Jucá no caso Angra 3. No final de julho, os delegados da PF que atuam na Lava Jato, em Brasília, cobraram Janot e sua equipe, por escrito: por que não investigar Renan e Jucá no caso Angra 3? Janot optou pela estratégia de aguardar a recondução para, em seguida, partir para o ataque à turma do Senado. Ele foi reconduzido há duas semanas, com tranquilidade. Agora, sua equipe acelera os trabalhos para preparar os torpedos contra o PMDB do Senado.

Mais delações

oas andrade
Mais delatores à vista
As cúpulas da Andrade Gutierrez e da OAS estão conversando abertamente com seus advogados sobre adesão à delação premiada dos seus executivos encrencados na Lava-Jato. Ressalte-se que não há martelo batido ainda. Por Lauro Jardim

Desvalorização do real passa de 70%, a maior desde 1999


Nos últimos 12 meses, encerrados na sexta-feira passada, a desvalorização do real ante o dólar já chegou a 71,57%. Uma perda maior para o mesmo período só ocorreu em março de 1999, de acordo com cálculos da consultoria Tendências. No ano em que o País abandonou a âncora cambial, ou seja deixou de ter câmbio fixo, a moeda brasileira desvalorizou 91,6%. A mudança de patamar do câmbio está provocando uma desorganização momentânea da economia e impactando diretamente o cotidiano das pessoas e das empresas. Espera-se, por exemplo, que a desvalorização do real seja um caminho para o Brasil sair da atual recessão, por meio do impulso nas exportações e pela consequente melhora do setor externo. "Quanto mais depreciado o câmbio, mais competitivos vão estar os produtos tanto para a exportação como domesticamente", afirma Bruno Lavieri, economista da Tendências. Um sinal de melhora das exportações já está evidente na rentabilidade das vendas externas na combalida indústria de transformação. Os dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) mostram um avanço da rentabilidade de 12,6% em julho na comparação com o mesmo mês do ano passado. Na agricultura e pecuária, o aumento foi mais modesto, de 0,9%, num sinal de que a alta do dólar está compensando a forte queda do preço das commodities. Para quem importa, porém, a conta começa a ficar mais cara. Dono de uma importadora de brinquedos, material escolar e artigos de bazar, Ronaldo Funtowicz, de 57 anos, sentiu o peso do câmbio em seu negócio. "À medida que aumenta o dólar, aumenta o custo. Somos obrigados, para manter a demanda, a sacrificar a margem, para passar por esse período", afirma. Os preços subiram em média de 20% a 25%, e os estoques estão mais altos do que em 2014: "Em outubro vamos à China para comprar brinquedos, e vamos trazer uns 30% a menos do que no ano passado". A desvalorização do real também desestimulou quem pretendia encher as malas com produtos de outlets numa viagem ao Exterior. "Quando o dólar estava 3,35 reais, as pessoas não se assustavam. Quando passou de 3,60 reais, elas começaram a fazer contas", afirma Leonel Rossi Junior, vice-presidente de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav). Segundo a associação, a demanda para viagens ao Exterior caiu 10% neste ano. "A procura só não foi menor porque houve uma queda significativa no preço das passagens", afirma Rossi Junior. Ele espera que, no segundo semestre, haja mais demanda por destinos domésticos - de 5% a 7% a mais do que em 2014. Com a disparada da moeda americana, o dólar turismo em espécie está na casa dos 4 reais. Já no cartão pré-pago, com imposto maior, já ultrapassou 4,40 reais em algumas casas de câmbio.

Economista Affonso Celso Pastores - "Uma guinada de 360 graus"

Diante do crescimento contínuo da dívida pública que ameaça a manutenção do grau de investimento, o Brasil precisava retornar à austeridade fiscal, e os mercados festejaram quando ingenuamente acreditaram que Dilma “havia mudado” ao nomear Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. Esperava-se uma guinada de 180 graus na política econômica, mas a presidente nos surpreendeu, e, muito ao seu estilo, “dobrou a aposta”, presenteando-nos com uma “guinada de 360 graus”. Depois de alguma hesitação, curvou-se às mesmas crenças que nortearam a política econômica de seu primeiro mandato, que mantiveram a inflação elevada e levaram à estagnação e em seguida à recessão, com o agravante de que agora a dívida pública adquiriu um crescimento insustentável, expondo o País aos riscos da perda do grau de investimento e do aumento da inflação. O Brasil tem uma longa história de desequilíbrios fiscais. Nas décadas de 1970 e 1980, a dívida pública crescia muito pouco, mas isso não se devia à disciplina fiscal, que não existia, e sim ao financiamento dos déficits com base na arrecadação do “imposto inflacionário”. O País era vítima de um caso agudo de “dominância fiscal”, que ocorre quando o Banco Central perde totalmente a capacidade de controlar a inflação, transformando-se em um mero agente financiador dos déficits públicos. O Plano Real interrompeu esse comportamento. Ao dar ao Banco Central autonomia para controlar a inflação, eliminou a receita do imposto inflacionário, compelindo o governo a gerar superávits primários suficientemente elevados para reduzir a relação dívida/PIB. Nos últimos anos, contudo, a disciplina fiscal foi totalmente abandonada, sendo plantada a semente de uma nova forma de dominância fiscal. Como isso vem ocorrendo? Ao elevar o risco de solvência, o crescimento descontrolado da dívida pública reduz a demanda por ativos brasileiros por parte de estrangeiros, o que simultaneamente leva à depreciação cambial e eleva as cotações do CDS brasileiro (uma medida do risco dos títulos de dívida soberana). A depreciação cambial, por sua vez, eleva tanto mais a inflação quanto maior for a perda de autonomia do Banco Central, que é mais intensa quando a baixa qualidade da política econômica expõe o País à estagnação e à recessão, e quando o governo é politicamente fraco. Os dois gráficos acima contam um pouco dessa história. Em um deles são superpostas as cotações do CDS de 10 anos de Brasil, México e Turquia. Quando ainda havia disciplina fiscal, em 2011 e 2012, as cotações do CDS brasileiro se igualavam às do CDS do México, que é um país que tem o grau de investimento. Com a queda dos superávits primários mascarados pelas pedaladas fiscais e pela contabilidade criativa, em 2013 e 2014, as cotações do CDS brasileiro elevaram-se relativamente às do México aproximando-se das cotações do CDS da Turquia, que não tem o grau de investimento. Finalmente, quando o governo “jogou a toalha”, desistindo de qualquer ajuste fiscal e submetendo ao Congresso um orçamento com um déficit primário, as cotações do CDS brasileiro elevaram-se ainda mais, superando por larga margem o CDS da Turquia. Há duas percepções de risco: a das agências de classificação de risco e a do mercado financeiro, e, a médio prazo, ambas coincidem. As cotações atuais do CDS brasileiro são incompatíveis com o grau de investimento, e o nosso rebaixamento pelas agências de classificação de risco é apenas uma questão de tempo. No outro gráfico, estão superpostas a taxa cambial medida em R$/US$ e as cotações do CDS brasileiro, sendo muito claro que as variações no risco são um importante fator determinante da taxa cambial. É verdade que há outros fatores, como a valorização do dólar e a queda dos preços de commodities vinda da desaceleração do crescimento da China. Até dezembro de 2014, o real tinha uma trajetória de depreciação muito próxima das moedas de Austrália, África do Sul, Canadá e Chile, que, como o Brasil, são países exportadores de commodities. Mas, desde o início de 2015, o real vem se depreciando bem mais, e isso se deve à forte elevação dos prêmios de risco. A relação de causalidade é muito clara: o afrouxamento da política fiscal leva ao aumento dos riscos, o que reduz a demanda por ativos brasileiros por parte de estrangeiros, elevando as cotações do CDS e depreciando o real. Desde o início de 2015, o real já se depreciou mais de 35%, o que adicionou novas pressões inflacionárias. Quando o mercado ainda acreditava na capacidade de Joaquim Levy produzir milagres, as expectativas de inflação vinham declinando e o “prêmio de inflação” na curva de estrutura a termo de taxa de juros era muito baixo, levando a taxas de juros longas bem mais baixas do que as curtas. A depreciação cambial das últimas semanas alterou radicalmente esse quadro. O “prêmio de inflação” elevou-se, provocando forte aumento nas taxas de juros mais longas, o que é uma manifestação clara de que, na visão dos mercados, cresceu o risco de crescimento da inflação, que se acentua com a incapacidade de o governo reverter o quadro de desequilíbrio fiscal. Se o País não estivesse em recessão e existisse um mínimo de disciplina fiscal, o Banco Central reagiria à depreciação cambial elevando a taxa de juros. Mas, nas condições atuais, dentre as quais predomina a fraqueza política do governo, o cenário mais provável é de uma acomodação monetária, aumentando a inflação. Se o governo tivesse a força política para propor e aprovar um ajuste fiscal estrutural, que ocorreria predominantemente do lado dos gastos, veria os riscos caírem, reduzindo as cotações do CDS e valorizando o real, facilitando a tarefa do Banco Central. Mas nada disso está no horizonte, o que significa que estamos a caminho acelerado de uma nova forma de dominância fiscal. O quadro pioraria ainda mais se, nas condições atuais, o governo decidisse vender reservas para tentar evitar a depreciação cambial. Governos politicamente fracos apegam-se ao populismo e tentam nos convencer que há “caminhos fáceis” – sem custos. O ministro Nelson Barbosa não se cansa de repetir que o “verdadeiro ajuste fiscal” somente será feito através do crescimento econômico, e não dos cortes de gastos, e nos acena com a visão mecanicista de que, depois de dois ou três trimestres de recessão, “o crescimento do PIB se acelera automaticamente”, como se os ciclos econômicos fossem meras repetições dos ciclos na física. Como será possível retomar o crescimento com o consumo em queda devido ao aumento do desemprego e à atitude conservadora dos bancos nas novas concessões de crédito? Como será possível ver os investimentos em capital fixo crescendo quando o consumo encolhe ao lado da produção industrial, e a Petrobrás – que tem 10% da formação bruta de capital fixo no Brasil – corta à metade seus investimentos? Como será possível assistir à retomada do crescimento na construção civil diante dos elevados estoques de imóveis comerciais e residenciais?

O gaúcho Valter Cardeal, delatado pelo dono da UTC, para o almirante Othon: "Mim e tu temo que se ajudá".

Ao lado, reportagem de Época sobre o escândalo da CGTEE. Valter Cardeal, na foto, continua até hoje presidente do Conselho da estatal federal do Rio Grande do Sul. O engenheiro gaúcho Valter Cardeal, ex-diretor da CEEE no governo gaúcho e agora diretor licenciado da Eletrobrás, do qual já foi presidente, integra a lista dos denunciados pelo empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC. Valter Cardeal ocupou postos importantes sob Dilma na secretaria de Minas e Energia, e depois viajou com ela para Brasília, onde é um dos seus homens de confiança. Ricardo Pessoa denunciou o engenheiro por cobrar propina para a campanha de Dilma, em virtude dos contratos de Angra 3. A revista Época conta na sua edição deste final de semana que Valter Cardeal ligou na ocasião para o presidente da Eletronuclear, o almirante Othon , que já estava em desgraça, mas ainda não preso e réu, e durante a conversa xingou muito Ricardo Pessoa. O telefonema foi para combinar uma linha única de defesa. Disse no grampo: "Eu precisava daquela carta para mim (sic) poder tá na "mema" base com você, pra gente se ajudar". Eu tô em contato com o governo para ver "comé" que faz pra resolver a nossa vida, porque isso aí é uma sacanagem". Valter Cardeal não é muito conhecido pela cultura e pela gentileza. O editor teve várias desavenças com ele durante audiências em processos judiciais que ele moveu civil e criminalmente no Foro Central de Porto Alegre, sempre inconformado com denúncias feitas nesta página sobre escândalos ocorridos na CGTEEE, da qual ele era presidente do Conselho de Administração. (Políbio Braga)

Sergio Moro também está no rastro de Lula

Rodrigo Janot pretende investigar os brindes que Lula recebeu das empreiteiras. Mas há outro inquérito pronto para partir. Sergio Moro já pediu acesso à delação premiada de Ricardo Pessoa, porque a Lava Jato quer apurar a denúncia de que Lula foi eleito em 2006 com dinheiro roubado da Petrobras.

A prisão de Palocci e o impeachment

José de Filippi está na bica de ser preso. Ele foi tesoureiro da campanha de Lula, em 2006. Ele foi tesoureiro também da campanha de Dilma Rousseff, em 2010. No caso da campanha de 2010, ele deverá ser preso juntamente com Antonio Palocci. A tal propósito, a Folha de S. Paulo, neste domingo, diz o seguinte: “DEM, PMDB e PSDB repetiam na semana passada que a prisão de mais um petista de proa – citavam Antonio Palocci – precipitará o processo para afastar a presidente”.

Ei! O inquérito é contra a campanha de Dilma

O Globo deu destaque para o inquérito contra Dilma Rousseff. Mas preferiu chamá-la de “Edinho”. Aparentemente, “Edinho” é suspeito de ter achacado um empreiteiro para financiar a campanha presidencial de “Edinho”.

CPI da Dilma

Dilma Rousseff é uma presidente sub judice. O Supremo Tribunal Federal quer saber se ela foi eleita com dinheiro roubado da Petrobras. Ela já havia perdido a popularidade e a credibilidade. Agora perdeu também a legitimidade. Como é que uma presidente da República suspeita de ter sido eleita com dinheiro roubado pode pedir um novo imposto transitório, por exemplo? Para evitar que o Brasil se torne ingovernável e insolvente, a prioridade é acelerar o inquérito. E torná-lo o mais transparente possível. Antes de tudo, o depoimento de Ricardo Pessoa precisa se tornar público. E a CPI da Petrobras tem de se transformar na CPI da Dilma.

Perda inexorável

Dora Kramer informa que Dilma Rousseff ouviu de um aliado abalizado que "seu tempo está terminando. Se não conseguir reverter a situação até o fim do mês, a perda do mandato é inexorável". 
Dilma perderá o mandato inexoravelmente.

Odebrecht? João Santana?

Na mesma coluna, Dora Kramer relata que circula no governo a informação de que a Lava Jato teria descoberto o equivalente a 50 milhões de reais depositados por uma empreiteira do petrolão, "em conta de gente que atuou de maneira ativa nas campanhas eleitorais de Dilma". Odebrecht? João Santana?

Edinho, o investigado tranquilo

Uma terceira notícia dada por Dora Kramer: Edinho Silva, o investigado tranquilo, apareceu sem avisar no Instituto FHC, em São Paulo, querendo falar com o ex-presidente. Não foi recebido. Mas Edinho Silva continua tranquilo...

Mercadante, o investigado arrogante

Aloizio Mercadante, o investigado arrogante, deu entrevista à Folha. A certa altura, lhe perguntaram:
Folha: Dois anos de recessão?
Mercadante: Não estamos vendo desta forma. Agora, setembro, outubro, novembro, já vamos sentir uma melhora.
Vamos, sim, porque até novembro Dilma e Mercadante devem estar fora, se ainda resta um traço de responsabilidade nos políticos brasileiros.

Aloysio Nunes, o investigado chocado

Aloysio Nunes Ferreira, o investigado chocado, disse o seguinte: "É simplesmente absurda a mera suposição de que eu, oposicionista notório e intransigente aos governos do PT, pudesse favorecer negócios na Petrobras". O Antagonista acha simplesmente absurdo que Aloysio Nunes Ferreira continue amigo de José Dirceu e tenha promovido encontros secretos entre tucanos e o petista durante o processo do Mensalão do PT.

Falha de comunicação

Foi para atender pedido de Franklin Martins que Edinho Silva convidou Nelson Breve para assumir a Secretaria de Imprensa da Presidência. Breve ficou menos de um mês no cargo. Oficialmente, teria saído por questões familiares. Mas não é bem assim. O Antagonista apurou que a situação de Breve ficou insustentável porque Dilma nunca quis sua nomeação, ignorava-o solenemente e nem sequer o recebia no gabinete. Dilma mandou Edinho procurar um substituto, mas até agora ninguém topou o desafio.

Supremo autoriza investigação dos ministros petistas Aloizio Mercadante e Edinho, e do senador Aloysio Nunes Ferreira


Atendendo ao pedido feito pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de inquérito contra os ministros Aloizio Mercadante, da Casa Civil, e Edinho Silva, da Comunicação Social. O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) também está na lista de investigados nesta que é a primeira denúncia envolvendo diretamente ministros do governo da presidente Dilma Rousseff. Os três foram citados pelo empresário Ricardo Pessoa em delação premiada. O dono da construtora UTC disse que foram feitos repasses milionários para as campanhas eleitorais de Mercadante ao governo paulista, em 2010, e para a campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff, da qual Edinho Silva foi tesoureiro. O dinheiro também teria sido repassado para a campanha do senador tucano Aloysio Nunes. Como os inquéritos tramitam no STF como ocultos, não é possível saber quem são os alvos, nem mesmo qual é o andamento processual. Eles só se tornarão públicos se, ao final das investigações, a procuradoria apresentar uma denúncia e ela for aceita pela corte. Na delação, Ricardo Pessoa disse que a UTC doou R$ 7,5 milhões para a campanha de Dilma Rousseff. Para o ministro Mercadante, teria doado R$ 500 mil em 2010, quando ele se candidatou ao governo de São Paulo. Para o senador Aloysio Nunes, o empresário disse ter doado R$ 300 mil de forma oficial e R$ 200 mil em dinheiro, sem declaração. As doações, oficiais ou não, eram pagamentos de propina para obtenção de contratos com a Petrobrás, segundo Ricardo Pessoa (obviamente, isso não valia para o senador Aloysio Nunes Ferreira, que é do PSDB).