domingo, 10 de julho de 2016

Wilson Quintella, dono da Estre, faz delação premiada, o mundo do lixo entra na dança do Petrolão


O jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo, revela na manhã deste domingo que o empresário Wilson Quintella, dono da Estre, a ex-maior empresa de lixo do Brasil, cujo nome apareceu nas delações premiadas dos corruptos Paulo Roberto Costa e Delcídio do Amaral, entre outras, também está fazendo delação premiada. Ele está envolvido com contratos fraudados com estaleiros e fabricação de comboios fluviais para a Petrobras. Wilson Quintella também tem vinculações direta com o poderoso chefão da Orcrim petista, Lula, com o qual foi fazer negócios na Africa. Com Quintella o mundo do lixo, das empresas lixeiras, é arrastado para dentro da Operação Lava Jato. Lauro Jardim tem ligação com o Wilson Quintela e o grupo Estre desde quando pilotava a coluna Radar, na Veja. O mundo do lixo nacional, no ano estratégico de eleições municipais, entra em polvorosa. O lixo é sempre o maior contrato de qualquer prefeitura do Brasil, e um tradicional financiador de campanhas eleitorais. 


Escritor gaúcho Josué Guimarães era o espião "Gosha", a serviço da KGB soviética, revela jornal português Expresso


No dia 12 de março deste ano (2016), o jornal semanário português Expresso publicou em sua Revista E uma longa matéria investiga sob  o título “Arquivo Mitrokhin – a rede do KGB em Portugal”. A matéria se baseou em consulta aos arquivos do ex-expião soviético Vasili Nikitch Mitrokhin, o qual procurou os serviços de informação ingleses em 1992, e acabou entregando um poderoso arquivo que ele subtraiu da KGB, onde tinha trabalhado quase toda sua vida. Esses documentos estão depositados hoje na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Boa parte dos documentos segue classificada pelos serviços de segurança e ainda sem acesso público. Mas, boa parte do material foi desclassificada e tem acesso permitido para pesquisa. O jornal Expresso fez matéria para mostrar a íntima relação do Partido Comunista Português com a espionagem soviética, sobre como seus membros trabalhavam como espiões a serviço da União Soviética, que remunerava por seus serviços. Curiosamente, na página 15 desta matéria, o jornal Expresso relata que um conhecido intelectual brasileiro, o escritor Josué Guimarães, que se auto-exilou em Portugal na década de 70, foi recrutado e serviu por longos anos como espião a serviço da KGB soviética, tendo continuado nesse trabalho até mesmo após seu retorno ao Brasil. Não houve qualquer repercussão no Brasil a esse respeito. Caiu um manto de silêncio absoluto sobre o assunto. Nenhum jornalista ou pesquisador brasileiro demonstrou interesse em pesquisar sobre quais outros comunistas, ou esquerdistas em geral, traíram o Brasil e entregaram a sua lealdade para a União Soviética, que passaram a defender, recebendo pagamento para isso. Josué Guimarães foi jornalista e escritor gaúcho que nasceu em 7 de janeiro de 1921, em São Jerônimo, e morreu em 23 de março de 1983, em Porto Alegre.  Escreveu os romances “Camilo Mortagua”, “Dona Anja” e “A casa das quatro luas”.]

Clique aqui para ler o fac-simile da matéria do jornal Expresso
https://drive.google.com/file/d/0B8_RBOFhHrDUa3ZEbjBuUTFYM00/view?usp=sharing


Desde novembro que o Expresso tem vindo a consultar o arquivo Mitrokhin depositado na Universidade de Cambridge. Trata-se do maior acervo de informação sobre os serviços secretos soviéticos, só agora disponível. Hoje publicamos os segredos do KGB em Lisboa e as suas ligações a Portugal.

Em um dia de março de 1992, Vasili Nikitich Mitrokhin deixou a sua casa no 7º andar de um bloco de apartamentos em Moscou e seguiu viagem no trem noturno para Riga, a capital do novo estado da Letônia. Vasili, de 70 anos, transportava uma mala velha, com rodinhas. No fundo da mala, escondidas debaixo do pão, dos salames, da bebida e da muda de roupa andrajosa, iam umas folhas de papel, datilografadas de forma tosca. Vasili escolheu propositadamente a roupa mais velha de modo a não dar nas vistas quando atravessasse a fronteira russa e entrasse na nova república do Báltico. Na manhã seguinte, após quase 18 horas de viagem, Vasili foi à embaixada dos Estados Unidos em Riga. A Letônia readquirira a independência no verão anterior, na sequência do colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. No meio da enorme confusão, com dezenas de pessoas a pedir visto ou asilo, os americanos não atenderam o russo. Mandaram-no embora, que viesse noutro dia, com hora marcada. O senhor Mitrokhin pegou na mala e decidiu ir bater à porta da nova embaixada do Reino Unido na capital da Letônia. Pediu para falar com um funcionário da missão diplomática. Ele não tinha boa impressão dos britânicos, achava-os muito formais e conservadores, mas o primeiro contacto deixou-o surpreendido. “A diplomata que veio à recepção falar comigo era jovem, atraente e simpática. E falava russo muito bem”, recordaria Mitrokhin mais tarde. Vasili mostrou a identificação e apresentou-se como ex-arquivista-chefe do 1º Diretório Principal do KGB, o importantíssimo departamento dos serviços secretos soviéticos que se dedicava à espionagem e contraespionagem no Exterior. Disse que tinha algumas amostras de material ultrassecreto do KGB. A jovem diplomata leu os papéis de Mitrokhin — enquanto ele bebia o seu primeiro chá inglês – e apercebeu-se da enorme importância, em potencial, daqueles documentos. A embaixada britânica em Riga não tinha especialistas em inteligência, por isso marcou-se um novo encontro com Mitrokhin para abril. Os serviços de informações britânicos (SIS, mais conhecidos como MI6) enviariam especialistas de Londres de propósito para o encontro. O pensionista russo voltou, de fato, no dia 9 de abril de 1992. Surpreendido com a facilidade com que atravessara a fronteira no mês anterior, desta vez decidiu levar duas mil páginas. Outros encontros de Mitrokhin com agentes do MI6 seguiram-se em junho, setembro e outubro. Vasili contou a história extraordinária sobre a forma como supervisionara — entre 1972 e 1982 — a transferência dos arquivos mastodônticos do 1º Diretório do KGB do edifício Lubyanka, no centro de Moscou, para a nova sede em Yasenevo, nos arredores sudeste da capital russa. Ao longo desse período, Vasili Mitrokhin copiou e guardou nos bolsos, quase diariamente, pequenos papeizinhos manuscritos com extratos retirados dos arquivos do KGB. Escondeu posteriormente essas notas em caixotes que enterrou debaixo do soalho da dacha da família, a 36 quilômetros da capital. As notas que Mitrokhin mostrou ao MI6 britânico revelaram que tivera acesso a grande parte do material secreto do KGB — inclusive o mais secreto de todos, a identidade real de centenas dos famosos “ilegais” (agentes secretos do KGB que viviam no Exterior escondidos sob a capa de identidades falsas ou fictícias e com passaportes de outros países). As notas cobriam um período extenso, quase desde 1918 até às vésperas da era Gorbachev. Mitrokhin fora o responsável máximo, como arquivista-chefe, por abrir, analisar e selar cerca de 300 mil dossiês antes de serem enviados da Lubyanka para Yasenevo. Tudo lhe passava pelas mãos.  Mesmo depois de concluída a transferência, Vasili continuou a copiar informações dos arquivos, durante dois anos, até à sua reforma em 1984. No dia 7 de novembro de 1992 — curiosamente, o 75º aniversário da Revolução Bolchevique —, o MI6 procedeu à “extração” para fora da Rússia da família Mitrokhin e do arquivo completo das suas notas, que foram desenterradas e empacotadas em seis caixotes (os pormenores sobre esta “extração” permanecem secretos). O que levou Mitrokhin a correr tantos riscos entre 1972 e 1984? Se fosse descoberto, o mais provável seria acabar executado com um tiro na nuca em uma das celas do KGB. Vasili Mitrokhin fora recrutado pelo MGB (precursor do KGB) em 1946, com 24 anos. Tinha formação como jurista e arquivista e trabalhou a vida inteira no KGB, incluindo destacamentos no estrangeiro (Médio Oriente, Islândia, Holanda, Paquistão, RDA). Em 1956, foi um dos agentes responsáveis pelo “acompanhamento” dos atletas soviéticos nos Jogos Olímpicos de Melbourne, na Austrália (a operação foi um êxito: apesar dos receios, nenhum atleta desertou para o Ocidente). Pouco depois dessa viagem, passou a trabalhar nos arquivos centrais do 1º Diretório do KGB. As idas ao estrangeiro e o contacto frequente com meios de informação ocidentais (mesmo quando estava em Moscou) despertaram nele um olhar crítico. E depois a desilusão. O esmagamento da Primavera de Praga, em 1968, provou — segundo explicaria Mitrokhin — “que o sistema soviético era irreformável”. A luta de dissidentes soviéticos como Sakharov ou Soljenítsin inspirou--o a produzir, tal como eles, um trabalho de documentação das desigualdades e injustiças do sistema. Passou anos a copiar notas dos arquivos, apesar de saber que seria pouco provável que elas alguma vez vissem a luz do dia. Depois de reformado, em 1984, Vasili Mitrokhin organizou as suas notas, arrumando-as por país ou área geográfica em enormes envelopes escuros de cor castanha. Passou à máquina alguns estudos sistemáticos sobre operações do KGB no estrangeiro. Quando os caixotes de Mitrokhin foram “exportados” para a Inglaterra, em 1992, continham 10 volumes datilografados e mais de 30 envelopes cheios de notas manuscritas ainda não processadas. Nos anos seguintes, Mitrokhin completou a tarefa. Aos 10 volumes escritos na Rússia, somaram-se outros 26 datilografados por ele já na Inglaterra. Esta enorme hemorragia de material topsecret — incluindo manuais do KGB, documentação classificada, listagens de milhares de agentes soviéticos e de colaboradores espalhados pelo mundo inteiro, mais descrições detalhadas de operações clandestinas dos serviços secretos soviéticos — foi naturalmente celebrada pelos serviços de informações ocidentais. O MI6 britânico partilhou grande parte da informação com os serviços de países amigos (incluindo Portugal). O FBI qualificou o acervo de Mitrokhin como o “mais completo e extenso conjunto de informações secretas alguma vez recebido de alguma fonte”. Graças à informação recolhida, identificaram-se agentes do KGB no Reino Unido como Melita Norwood (agente “Hola”) ou John Symonds (“Scot”). O mesmo aconteceu, com maior ou menor discrição, em muitos outros países, em particular nos Estados Unidos e no Canadá,  onde ainda viviam muitos agentes “ilegais” plantados durante a Guerra Fria. “Mitrokhin foi simplesmente o maior golpe sofrido pela espionagem soviética e russa na América do Norte”, explica Edward Lucas, editor da revista “The Economist” e autor de vários livros sobre espionagem. As revelações de Mitrokhin deram origem a inquéritos parlamentares em países como o Reino Unido, a Itália ou a Índia. Um relatório da comissão parlamentar britânica de intelligence e segurança (ISC) notou, em 2000, que vários serviços de informações ocidentais ficaram “extremamente agradecidos” com as numerosas pistas fornecidas por Mitrokhin, “um homem de coragem e empenho verdadeiramente notáveis”. “O arquivo [Mitrokhin] é um dos maiores tesouros da história das informações secretas”, garante ao Expresso Ben Macintyre, colunista do diário “The Times” e autor de livros de espiões como “Agente Zigzag” e “Jogo Duplo”, ambos publicados em Portugal pela editora Guerra & Paz. “Os célebres arquivos Mitrokhin foram um dos casos de captura de intelligence mais extraordinários de sempre”, resume por sua vez o académico português César Henrique Morgado Rodrigues, especialista em Estudos Estratégicos e de Segurança. Vasili Mitrokhin utilizou parte da documentação em quatro livros, dois deles escritos com o professor Christopher Andrew, da Universidade de Cambridge (o primeiro — “O Arquivo de Mitrokhin — O KGB na Europa e no Ocidente” — foi publicado em Portugal pela Dom Quixote, em 2000). Algumas das notas transcritas por Mitrokhin passaram a integrar o “Cold War International History Project” do Wilson Center, em Washington DC. Depois da sua morte, em 2004, o arquivo original foi encerrado em mais de três dezenas de caixas depositadas à guarda do Archives Centre do Churchill College (um dos 31 "colleges" autônomos que integram a Universidade de Cambridge), onde também estão depositados os espólios de Winston Churchill e de Margaret Thatcher. Em julho de 2014, o grosso das notas datilografadas em língua russa foi colocado à disposição dos investigadores. Uma parte significativa do espólio, no entanto, permanece classificada. O sonho de Mitrokhin, desde 1972 até morrer, foi sempre tornar este material público”, explica o professor Andrew. “Ele foi um dissidente que correu riscos enormes porque queria garantir — tal como escreveu [o dissidente] Alexander Soljenítsin — que a verdade não fosse esquecida, para que um dia a posteridade possa ter conhecimento dela.” Mitrokhin era um homem de gostos simples e de poucas palavras. Falava com nostalgia das caminhadas de inverno nas florestas russas cobertas de neve. Tinha saudades de shchi, a tradicional sopa russa de couves. Com o seu passe de turista sénior, passou grande parte dos últimos anos de vida a viajar de trem no Reino Unido, de uma ponta a outra do país, na companhia da mulher, Nina, médica otorrinolaringologista. Mitrokhin morreu em Inglaterra no dia 23 de janeiro de 2004, com 81 anos. É esta coleção de notas que o Expresso consultou.
A REZIDENTURA DO KGB EM LISBOA
Na edição original inglesa do livro “O Arquivo de Mitrokhin”, de setembro de 1999, as referências a Portugal ocupam apenas três páginas de um volume grosso com mais de mil páginas. Os volumes entretanto disponibilizados no Churchill Archives Centre contêm material adicional sobre o nosso país, cobrindo o período de 1974 a 1982. Apesar da importância relativa que Portugal teve na segunda metade da década de 70 — como palco inesperado de uma luta ideológica e de influência entre blocos soviético e ocidental —, os papéis de Mitrokhin não lhe atribuem um capítulo sistemático próprio (o arquivo contém dossiês, por exemplo, dedicados a Afeganistão, Irão, Reino Unido, França ou Estados Unidos). Entre os milhares de páginas não indexadas e escritas em russo consultadas na Universidade de Cambridge encontraram-se, porém, 172 verbetes numerados sobre o nosso país. As notas recolhidas por Vasili Mitrokhin adiantam, por exemplo, alguns dados sobre a organização do posto (ou rezidentura, em língua russa) do KGB em Lisboa. Em 1980, o posto era chefiado por J. K. Semenychev — sob a fachada do cargo de primeiro-secretário da embaixada da URSS em Portugal — e contava com 14 pessoas. Seis pertenciam à Linha PR do KGB (“Inteligência estratégica política, económica e militar; medidas ativas”), outros dois pertenciam à chamada Linha KR (“Contrainteligência e segurança”) e mais dois à Linha N (“Apoio a agentes ilegais”). O posto tinha ainda um operador de rádio, um criptógrafo, um agente da Linha X (“Inteligência científica e tecnológica”) e outro da Linha RP (“Interceção, captação e monitorização de comunicações, sinais e emissões eletrónicas”). Todos os agentes do posto de Lisboa tinham uma cobertura legal, com cargos de secretário ou adido na embaixada ou nos serviços consulares da representação soviética em Lisboa. Em 1980, o agente da Linha X em Portugal, por exemplo, era Boris Fyodorovich Kesarev, oficialmente o chefe da delegação comercial da embaixada. Kesarev destacara-se, anos antes, no posto do KGB em Paris (em dezembro de 1974, foi condecorado com a Ordem da Estrela Vermelha com uma citação assinada pelo punho do próprio chefe do KGB, Yuri Andropov). Alguns funcionários do KGB escondiam-se debaixo de outras capas: o correspondente do jornal “Izvestia”, Viktor P. Nesterov, por exemplo, era na verdade um funcionário do KGB (Linha PR). O mesmo acontecia com vários jornalistas das agências TASS e APN Novosti. Os apontamentos de Mitrokhin referem, entre outros, os nomes dos agentes L. K. Agapov (correspondente do “Izvestia” em Lisboa entre 1975 e 1978) e Viktor Gundarev, delegado em Portugal da Associação de Transportes Marítimos do Mar Negro (em 1986, o mesmo Gundarev desertou para os Estados Unidos com a namorada e o filho de 7 anos, com a ajuda da CIA). O posto do KGB em Lisboa começou a operar em agosto de 1974. A embaixada soviética, instalada provisoriamente no Hotel Tivoli, funcionava desde o final de julho. O primeiro embaixador da URSS em Portugal, Arnold Kalinin, aterrou em Lisboa no dia 7 de agosto, com direito a primeira página em quase toda a imprensa portuguesa. Kalinin esteve anteriormente na representação diplomática soviética em Cuba, era um homem fluente em português e espanhol (mais tarde transitaria para Luanda) e chefiou uma embaixada que no verão de 1974 contava com mais de 210 funcionários soviéticos, incluindo 15 da carreira diplomática (muitos deles agentes do KGB). No primeiro ano de atividade da rezidentura de Lisboa, as comunicações com o “Centro” (a sede do KGB, em Moscovo) eram feitas via Paris. O posto do KGB na capital francesa foi sempre um dos mais importantes. Durante o período da Guerra Fria, Paris tinha mais agentes — 50, no mínimo — do que qualquer outra cidade da Europa Ocidental. Em 1977, o volume de comunicações em cifra com origem em Lisboa era já tão alto — foram transmitidos 5837 criptogramas de 938.906 grupos ao longo do ano — que o posto pedia ajuda: “O carregamento [de dados] é enorme, precisamos de nova máquina criptográfica”, lê-se numa nota de 1978 transcrita por Mitrokhin. A rezidentura, aliás, tinha outros motivos de queixa. “Portugal é um país periférico que viveu muito tempo em isolamento e por isso não é possível trabalhar em muitas das grandes questões internacionais”, refere uma das notas. O posto queixa-se, igualmente, do facto de os “diversos golpes e contragolpes (28 de setembro de 1974, 11 de março de 1975, 25 de novembro de 1975) terem destruído vários contactos e ligações com portugueses e obrigado a estabelecer novos contactos”. De acordo com uma nota de 1978, a embaixada da União Soviética em Lisboa renovou e equipou três novas salas — duas delas para a rezidentura do KGB. As contas de 1979, transcritas por Mitrokhin, revelam um défice importante — de 9400 rublos — na gestão do posto da capital portuguesa. “As despesas de Artigo 1 UA (agentes) atingiram 10.400 rublos, enquanto as despesas de Artigo 1 UD (despesas operacionais) somaram 18.000. O total de 28.400 rublos (convertíveis em divisas estrangeiras) excede o planeamento financeiro em 9400 rublos (convertíveis em divisas estrangeiras).”
NOME DE CÓDIGO: “PATRICK”
Ao longo das últimas quatro décadas, o PCP negou sempre qualquer tipo de colaboração com os serviços secretos soviéticos. Numa entrevista publicada no “Avante!” no dia 13 de outubro de 1994, por exemplo, Álvaro Cunhal abordou a “campanha de calúnias” sobre as supostas ligações do PCP a serviços de informação estrangeiros. Todos os casos de militantes com ligações comprovadas a serviços de informação — ou mesmo quando havia apenas uma “desconfiança forte e justificada” — teriam o mesmo desfecho: a imediata expulsão do partido. “Esta é uma questão importante em termos de princípios, de orientação e de prática”, explicou na altura o antigo secretário-geral do PCP. “No nosso partido, essa questão foi e continua a ser inteiramente clara [...]. O PCP nunca admitiu quaisquer contactos com serviços de informação. A ligação, informação ou compromisso com qualquer serviço de informação é incompatível com a qualidade de membro do PCP.” Na mesma entrevista ao órgão oficial do partido, Cunhal acrescenta que o PCP solicitou repetidamente aos partidos comunistas da URSS e de outros países socialistas que “dessem indicações concretas para que os serviços de informação respetivos se abstivessem de procurar informações ou tentar recrutamentos junto de membros do nosso partido”. Os arquivos do KGB transcritos por Vasili Mitrokhin descrevem um quadro totalmente diferente. O PCP não só permitiu como também promoveu e encorajou o recrutamento de membros e simpatizantes do partido por parte do KGB. Os arquivos revelam que muitos dos colaboradores portugueses da agência soviética foram recrutados por indicação ou recomendação do PCP. Em dezembro de 1974, o chefe da rezidentura do KGB em Lisboa (“Leonid”) encontrou-se com o líder do PCP, Álvaro Cunhal, numa casa secreta do partido. “Foram discutidas questões específicas. A conversa foi conduzida não por palavras ditas mas com a ajuda de papel e lápis, por receio de serem escutados.” De acordo com esta nota, Cunhal disse que estava disponível para “colaborar em qualquer questão do interesse do KGB”. Ficou acordado que o KGB iria treinar dois militantes nas técnicas de deteção de equipamento de escutas (Cunhal prometeu indicar “dois camaradas de confiança”). O líder português anunciou igualmente que iria passar para as mãos do KGB “materiais da PIDE e da NATO de que ele dispõe no partido”.  Outro dos nomes que aparece com mais frequência nos verbetes relacionados com Portugal é o de “Patrick” — o nome de código claramente atribuído a Octávio Pato, membro destacado da cúpula comunista, deputado e candidato nas eleições presidenciais de 1976. Os encontros com o posto do KGB em Lisboa eram regulares (“uma a duas vezes por mês”). Numa dessas ocasiões, “Patrick” passou “informação militar secreta sobre os americanos, obtida por um agente do PCP”, lê-se numa das notas. Outras informações transferidas para o KGB incluíam notas sobre o partido, sobre assuntos de política nacional e sobre a NATO. Mitrokhin refere também que em 1980 o 1o Diretório do KGB, em Moscovo, debateu a possibilidade de fornecer aos comunistas portugueses “material técnico especial” com o objetivo de ser instalado em “alvos de interesse” em Portugal. Em julho de 1977, durante uma visita de Pato a Moscovo, o 1o Diretório do KGB pediu-lhe ajuda na seleção de candidatos portugueses que seriam treinados como agentes para operações especiais contra a NATO. “Patrick” disse que não via inconveniente em indicar membros do partido para determinadas missões secretas esporádicas “em prol da causa soviética”, mas manifestou apreensão perante a possibilidade de perder “bons comunistas, de confiança”, para trabalhos de inteligência de longa duração. Pato disse que teria de discutir o assunto com Cunhal. De acordo com as transcrições feitas por Vasili Mitrokhin, “Patrick” apresentou mais tarde ao posto do KGB de Lisboa cinco nomes de possíveis candidatos — cinco comunistas portugueses “sem cargos de grande responsabilidade no partido” — e entregou passaportes portugueses em branco e outra documentação que poderia ser útil na fabricação de novas identidades para os candidatos. Contactado pelo Expresso a meio da semana, o gabinete de imprensa do PCP retoma as palavras de Álvaro Cunhal e “repudia veementemente velhas falsidades, calúnias e provocações anticomunistas que, como estas,têm por base alegadas revelações de fontes ligadas a serviços secretos, ou outras, que de tempos a tempos são recuperadas”. O comunicado acrescenta que o PCP “há muito que clarificou que, seja em termos dos seus princípios, da sua orientação ou da sua prática, nunca admitiu quaisquer contactos com serviços de informação, seja de que país forem, e que a ligação, informação ou compromisso com qualquer serviço de informação é incompatível com a qualidade de membro do PCP”.
A APROXIMAÇÃO A SOARES
O arquivo Mitrokhin inclui três verbetes que fazem referência a Mário Soares. O antigo Em 1980, o posto do KGB tentou abrandar o processo de integração de Portugal na CEE líder socialista foi alvo de cultivo pelo KGB entre 1972 e 1977. O agente operacional V. I. Koblikov deslocou-se várias vezes a Portugal com esse propósito, sob a capa de missões oficiais da União das Associações Soviéticas de Amizade e Cultura com os Países Estrangeiros. O verdadeiro objetivo de Koblikov, no entanto, era “estabelecer contactos e uma relação de confiança com os partidos socialista e comunista”. Cunhal estava a par da missão de aproximação a Soares, cujo nome de código era “Merkuriy” (o KGB atribuía nomes de código a pessoas que trabalhavam para os serviços secretos e também a pessoas que eram meramente alvos, como ministros ou oficiais estrangeiros, que não tinham qualquer ligação ao KGB). “Koblikov recebeu informações de ‘Mercuriy’ e uma carta endereçada a Brejnev. No entanto, os objetivos delineados não foram alcançados”, lê-se numa das notas. Num apontamento de 1977, refere-se que Soares — na altura, primeiro-ministro do I Governo Constitucional — estava na lista de contactos de um agente do posto do KGB em Lisboa que tinha o nome de código “Yaroslav”. “Graças à ajuda de contatos de confiança do posto [do KGB de Lisboa] e graças aos esforços nos bastidores por parte de Mário Soares, o posto conseguiu encerrar os semanários reacionários ‘Telex’ e ‘A Rua’, que publicavam regularmente matérias antissoviéticas.” A mesma nota acrescenta que foi igualmente graças à influência de Soares nos líderes partidários e nos círculos militares e políticos que uma conferência europeia contra a ameaça soviética foi adiada por longo período e transferida para 1978. A última nota transcrita por Mitrokhin sobre Mário Soares não está datada, mas presume-se que tem origem numa informação do início da década de 80, quando André Gonçalves Pereira era ministro dos Negócios Estrangeiros dos VII e VIII Governos Constitucionais (1981-82). “‘Patrick’ [Octávio Pato], do PCP, relatou-nos que o partido dispõe de material comprometedor sobre as ligações de M. Soares e A. Gonçalves Pereira com a CIA e os americanos, embora não haja provas visuais, fotografias ou contas monetárias. Este material poderia ser usado noutro país”, lê-se na nota.
AS “AGULHAS” DO PCP
Os partidos comunistas de países da América do Norte e da Europa Ocidental olhavam para a questão da colaboração com os serviços secretos soviéticos como uma espécie de “dever fraternal” que pura e simplesmente tinha de ser cumprido. Em contrapartida, a maior parte dos líderes de PC ocidentais — mesmo no caso dos partidos mais importantes, como o PC francês — também considerava que o Partido Comunista da União Soviética (PCUS) tinha o “dever fraternal” de lhes pagar, via KGB, subsídios anuais. A existência destes subsídios — o “Ouro de Moscovo”, como lhe chamavam os adversários — foi sempre negada veementemente por todos os envolvidos. Apenas um círculo muito reduzido de pessoas estava a par dos pagamentos. Em 1991, na sequência da apreensão dos arquivos do PCUS pelo Governo de Boris Ieltsin (então ainda Presidente da República Socialista Federativa Soviética da Rússia), foram publicados vários documentos que revelaram os montantes exatos pagos. Calcula-se que, durante a década de 80 — numa altura em que a URSS se debatia com enorme escassez de divisas —, o PCUS tenha distribuído mais de 200 milhões de dólares a “partidos irmãos” de países fora do bloco soviético. No livro “Cunhal, Brejnev e o 25 de Abril” (2013), o historiador José Milhazes adianta que, nesse período, o PCP recebeu valores situados entre os 700 mil (em 1981) e um milhão de dólares por ano (1987-89). As notas coligidas por Mitrokhin incluem vários exemplos de transferência de “Ouro de Moscovo”, embora sem referência aos montantes totais recebidos por cada partido. Tal como acontecia com os outros partidos, os financiamentos que Moscovo atribuía ao PCP eram aprovados pelo Comité Central do PCUS e a transferência efetiva estava a cargo do KGB. Na correspondência entre o Centro e a rezidentura em Lisboa, estes dinheiros eram sempre referidos pelo nome de código “igolki” (ou “agulhas”, na língua russa). No Canadá, por exemplo, os subsídios para o PC canadiano tinham o nome de código “trigo dos EUA”. Num verbete de 1977 transcrito por Mitrokhin sobre uma reunião de agentes com “Patrick” — o contacto preferencial do posto do KGB em Lisboa dentro da cúpula comunista — refere-se que além da troca de informação política abordou-se a “questão dos preparativos muito especiais necessários para a transferência de ‘agulhas’”. Os documentos raramente fazem referência a montantes precisos. Num deles adianta-se apenas que representantes do jornal soviético “Pravda” participaram na Festa do “Avante!” em setembro de 1978 e “entregaram 576 mil escudos portugueses” — um montante que corresponderia a mais de 43 mil euros em 2015 (de acordo com a atualização de valores com base no índice de preços no consumidor).
AS “MEDIDAS ATIVAS” EM PORTUGAL
O arquivo Mitrokhin inclui algumas revelações sobre a atividade do posto do KGB em Lisboa. Em 1979, por exemplo, a rezidentura esteve muito ocupada a tentar contrariar uma conferência sobre a ameaça soviética (foram organizadas “conversas” para influenciar líderes de opinião, imprimiram--se folhetos e publicações). Entre os “objetivos principais” do posto estabelecidos para aquele ano incluíam-se a “propaganda dos ideais do não-alinhamento; o reforço dos elos de Portugal com países em desenvolvimento; e o estreitar das ligações políticas e económicas [de Portugal] com os países socialistas, em particular o estabelecimento de ideias de apoio à causa soviética nos negócios estrangeiros”. Ainda em 1979, os alvos da penetração dos serviços de informações da rezidentura do KGB em Lisboa eram a base da NATO, a rádio Free Europe e as embaixadas de três PALOP (Angola, Moçambique e Guiné-Bissau). São referidos também alvos menores, como os gabinetes da Presidência da República e do primeiro-ministro, o cultivo de deputados da Assembleia da República, a recolha de informações dentro de sindicatos, media, organizações de esquerda e “pró-chineses”. No ano seguinte — fruto, talvez, da vitória da coligação AD de Sá Carneiro e Freitas do Amaral nas eleições legislativas portuguesas de dezembro de 1979 —, a lista de objetivos era completamente diferente: “Influenciar a opinião pública com a finalidade de promover a subida ao poder de um governo mais moderado [à esquerda]; identificar os planos que o Governo português tem rumo à destruição da Revolução de Abril; fazer trabalho de reconhecimento contra a NATO, os Estados Unidos e a China.” Para cumprir estes objetivos, os agentes do KGB em Portugal levaram a cabo diversas “medidas ativas”. Em 1979, por exemplo, foram 33. No ano seguinte foram 59. O termo “medidas ativas” era frequente na gíria dos serviços secretos soviéticos e englobava uma série de ações de subversão com a finalidade de enfraquecer o Ocidente, fragilizar a posição dos Estados Unidos junto da opinião pública europeia, gerar divergências entre os aliados ocidentais ou apenas influenciar o curso dos eventos mundiais. O programa do posto do KGB em Portugal para 1980 previa, por exemplo, a realização de “medidas ativas” de “comprometimento do Adversário Principal [os Estados Unidos, no jargão dos serviços secretos soviéticos]”. Outras medidas visavam “tentar quebrar as ligações de Portugal a países da NATO” ou “abrandar o processo de integração na CEE”. As notas do KGB registam, com orgulho, a realização de “27 conversas de influência, um pedido no Parlamento, a organização de três reuniões, cinco discursos em eventos públicos, um visionamento e três jornais”. Estas “medidas ativas”, ensinadas em cursos especiais das escolas do KGB, eram levadas a cabo com recurso a métodos diversos: propaganda pura, desinformação, manipulação dos media, falsificação de documentos oficiais, penetração de igrejas, partidos e outros organismos. Em casos extremos, poderiam incluir “ações especiais” envolvendo vários graus de violência. Também englobavam ações de apoio a partidos comunistas e socialistas no estrangeiro ou a organizações internacionais de fachada, como por exemplo o Conselho Mundial da Paz. Os apontamentos copiados por Vasili Mitrokhin referentes a Portugal incluem alguns exemplos de “medidas ativas” deste tipo. “Durante a campanha eleitoral de 1976, a rezidentura de Lisboa lançou as ações ‘Koilebra’ e ‘Fado’ de [impressão de] folhetos que ajudaram ao reforço das posições do PCP nas eleições parlamentares”, lê-se num dos verbetes. Outra ação, como o nome de código “Prasa”, tinha como objetivo “evitar a entrada de Portugal e Espanha na CEE através do reforço das tensões entre os dois países e a França/Itália”. Em 1978, um longo apontamento feito por Mitrokhin descreve o plano detalhado do KGB para contrariar o impacto — ou “diminuir a ressonância”, nas palavras do posto soviético — de uma conferência planeada para Lisboa sobre o “imperialismo russo, ausência de liberdade e violação dos direitos humanos na URSS” (uma das medidas planeadas era uma “conversa de influência” com a escritora Natália Correia, uma das organizadoras da conferência). Em fevereiro de 1981, o grupo parlamentar da UEDS, de Lopes Cardoso, introduziu um projeto de lei que visava interditar a permanência e instalação de armamento nuclear em Portugal. Segundo Mitrokhin, este projeto foi o resultado direto da intervenção do KGB em Portugal. Uma ação promovida pelo posto do KGB em Lisboa, igualmente no início de 1981, visou criar um movimento de trabalhadores e sindicatos contra a NATO e os Estados Unidos e contra a presença de armas nucleares no país. Esta ação (“Priliv”) arrancou com uma conferência sobre a questão do desarmamento e da segurança europeia presidida pelo antigo Presidente da República Francisco da Costa Gomes (nome de código: “Rytsarya”). A conferência foi organizada sob a fachada do Conselho Português para a Paz e Cooperação, a associação portuguesa filiada no Conselho Mundial da Paz, na altura muito próximo de Moscovo. De acordo com serviços secretos portugueses (nome de código “Mosaika”, no seio do KGB). “No final de 1975, a rezidentura do KGB em Portugal recebeu do PCP o arquivo dos Serviços Especiais de Portugal”, lê-se num dos apontamentos. Noutra nota, Mitrokhin faz uma longa enumeração do material recebido: “Os comunistas em Portugal deram ao KGB materiais operacionais e tarefas operacionais da polícia política PIDE/DGS do regime fascista em Portugal; do serviço de segurança SDCI criado depois de 25 de abril de 1974 e dissolvido após os acontecimentos de 25 de novembro de 1975; da 2ª Divisão do EMGFA (inteligência militar), bem como materiais com informações e materiais operacionais do PCP dos anos 1937-75. O peso dos materiais é de 474 quilos, incluindo 37 quilos recebidos a 26 de março Em janeiro de 1976 foi criado um grupo específico no 5o Departamento (o departamento operacional/geográfico que lidava com Portugal) do 1o Diretório do KGB para processar os arquivos portugueses. Para “segurança adicional”, escreve Mitrokhin, “foram filmados 67.138 fotogramas”. O material principal foi posteriormente repartido por diversos serviços e departamentos, incluindo o Comité Central do PCUS, o GRU (o serviço de inteligência militar) e várias divisões do 1o Diretório. Algumas informações foram passadas a “amigos de outros países socialistas” (a chefia do KGB, no entanto, ordenou que não fossem disponibilizadas quaisquer cópias dos documentos). Os apontamentos de Mitrokhin fazem referência à dimensão e importância do material. “Foi obtida informação extremamente importante sobre a estrutura, os métodos de trabalho e as redes de agentes dos Serviços de Inteligência dos Estados Unidos da América, da França, da República Federal da Alemanha e da Espanha no território de Portugal; sobre a sua cooperação [com a PIDE/DGS] e sobre a rede de agentes da PIDE/DGS em Portugal e nas antigas colónias; sobre as forças armadas de Portugal e de uma série de outros países; sobre os métodos de trabalho dos Serviços Especiais portugueses contra a União Soviética e outros países socialistas; sobre a situação operacional dos agentes no país e em alvos de interesse do KGB; [e] sobre indivíduos de interesse operacional para o KGB.” O professor Christopher Andrew, da Universidade de Cambridge, acrescenta — no livro que escreveu com Mitrokhin, em 1999 — que o Serviço A do KGB (o departamento de “Desinformação e medidas ativas”) utilizou alguns destes documentos em ações que visaram desacreditar os serviços secretos norte-americanos, franceses e alemães. A revista “Le Nouvel Observateur”, por exemplo, publicou uma cópia de uma carta de Allen Dulles (diretor da CIA entre 1953 e 1961) que mostrava a familiaridade muito próxima existente entre os serviços secretos de Portugal e dos Estados Unidos. Nessa carta, Allen elogia os agentes da PIDE que frequentaram cursos de quatro meses sobre métodos de interrogatório e tortura nas instalações da agência norte--americana: “[Os portugueses são] agentes de alto calibre, diligentes e visitantes corteses”, escreve Dulles. Numa outra reportagem publicada na revista “Jeune Afrique” — sobre o assassínio do fundador do PAIGC, Amílcar Cabral — adiantam--se por sua vez pormenores muito comprometedores para os serviços secretos da França e da Alemanha. Vasili Mitrokhin não foi o primeiro a referir a transferência dos arquivos para Moscovo. No livro “Memórias de Um Espião”, de 1994, o antigo general do KGB Oleg Kalugin descreve a “audácia absoluta” da operação que envolveu encher um camião que transportou uma “montanha de dados classificados de inteligência” para a embaixada da URSS em Lisboa (e posteriormente de avião para Moscovo). Segundo Kalugin, o arquivo incluía algum material de “interesse limitado” sobre operações militares americanas na Europa. Mais importante, escreve Kalugin, foi a “lista de milhares de agentes e informadores que trabalharam para a ditadura”: “Mais tarde, os nossos oficiais usaram essa informação para forçar alguns desses agentes a trabalhar para nós [KGB].” No prefácio à edição portuguesa do livro “O Arquivo de Mitrokhin”, José Pacheco Pereira sublinha o “grande potencial operacional” dos arquivos da PIDE, que “permitiam tudo: desmascarar informadores, identificar infiltrações, fazer chantagem, etc. Em nenhum sítio, o carácter operacional desses arquivos teve uso mais trágico do que em Angola, em Moçambique e na Guiné”. “Os arquivos matam, como Mitrokhin sabia e como Cunhal também certamente sabia.” As revelações de Kalugin (1994) e, mais tarde, de Mitrokhin (1999) foram sempre rebatidas pelo PCP. Dirigentes do partido criticaram nomeadamente o facto de ser “uma história suportada apenas por dois dissidentes cujos testemunhos valem pouco, já que foram moeda de troca no negócio de passagem para o outro lado”. Numa entrevista publicada no “Avante!” de 13 de outubro de 1994, Álvaro Cunhal critica a “violenta operação provocatória desencadeada contra o partido” na sequência da publicação do livro de Kalugin. O líder histórico do PCP admite, no entanto, que na sequência da “verdadeira ocupação e invasão das instalações da PIDE (incluindo os arquivos) por pessoas das mais variadas tendências políticas, logo após o 25 de Abril, houve de certeza desvio de documentos com os mais variados destinos por muitas iniciativas individuais espontâneas não controladas”. Além dos papéis de Mitrokhin, outras fontes fizeram referência, no passado, à influência de Costa Gomes (filho) sobre Costa Gomes (pai). Na biografia “Marechal Costa Gomes: No Centro da Tempestade” (2008), o autor, Luís Nuno Rodrigues, cita fontes norte-americanas que referem, por exemplo, que “grande parte da influência do PCP sobre o Presidente da República era proveniente do seu próprio filho, membro da juventude comunista, que inclusivamente teria já ameaçado com greve de fome caso o pai não assumisse uma determinada posição favorável ao PCP”. A antiga dirigente comunista Zita Seabra confirma, por sua vez, que o partido recrutou Chico, o filho do general Costa Gomes. “Nos momentos críticos, eu falava diretamente com o Chico e transmitia-lhe o que me mandavam dizer-lhe. Momentos houve em que este contacto foi decisivo para as decisões do general”, escreveu Zita Seabra no livro “Foi Assim” (2007). Um dos projetos mais ousados, em 1976, tinha o nome de código operacional “Tejo” e previa a criação de uma organização de promoção de interesses sociais e políticos, mas que, na prática, serviria de máquina de propaganda anti-NATO. A organização contaria com um jornal próprio, cuja direção estaria a cargo do agente “Braun” — o nome de código do jornalista e economista Eduardo Maia
Cadete (1942-1999), um dos históricos do Partido Socialista que participaram na fundação do partido, em 1973, na Alemanha. “[A organização de fachada] levaria a cabo medidas ativas e dessa forma teria uma influência proveitosa no público português”, lê-se num dos apontamentos de Mitrokhin. O projeto acabou por ser abandonado em 1979 devido a “dificuldades com o agente operacional no país”. “Além disso, Portugal tem demasiadas organizações de esquerda e órgãos de imprensa controlados pelo PCP que podem fazer o trabalho”, lê-se na documentação. Contactado pelo Expresso, um dos filhos, também chamado Eduardo Maia Cadete, afirmou desconhecer qualquer ligação do pai ao KGB.
JORNALISTAS DE CONFIANÇA
Para as ações de manipulação nos media, o posto de Lisboa do KGB contou com a ajuda de jornalistas de confiança. Em 1977, o KGB plantou com êxito artigos na imprensa nacional atacando duramente o Governo britânico por ter expulsado o ex-agente da CIA
1 Maia Cadete, jornalista e histórico do PS, nome de código “Braun”
2 Fac-símile do “Diário de Lisboa”, de 1979, onde um artigo não assinado responsabilizava a NATO pelo aumento da mortalidade infantil em Itália
3 Mário Ventura Henriques, jornalista e escritor, nome de código “Kareka”
4 Jorge Heitor, jornalista, nome de código “Emil”
5 Fernando Lima, ex-diretor do “Diário de Notícias” e assessor de imprensa de Cavaco Silva, nome de código “Taor”
O arquivo Mitrokhin faz referência à publicação de artigos que incluíam “expressões de Sakharov de apoio à junta chilena de Pinochet”, uma fabricação ordenada em novembro de 1975 pelo próprio chefe de KGB, Yuri Andropov, para desacreditar o dissidente Andrei Sakharov, vencedor do Prémio Nobel da Paz. Outra “medida ativa” na imprensa resultou na publicação de um pequeno artigo não assinado no “Diário de Lisboa”, no dia 7 de agosto de 1979, onde se associa o aumento da mortalidade infantil em Nápoles ao desaparecimento de um contentor da base militar norte-americana de Bagnoli, no sul da Itália. A nota de Mitrokhin refere que a publicação deste artigo foi o resultado de uma

Em dois apontamentos transcritos no arquivo Mitrokhin descreve-se o jornalista Jorge Feio (nome de código “Fred”) como um “jornalista progressista, redator destacado da secção internacional do jornal português ‘Diário de Notícias’, que foi recrutado pelo KGB em 1977”. Além de ser um agente que “fornece informação de valor muito alto”, “Fred” também foi usado em medidas ativas. “Através dele, o posto [do KGB em Lisboa] publicou artigos no semanário ‘Extra’ e no ‘Diário de Notícias’.” As notas de Mitrokhin acrescentam ainda, de forma algo labiríntica, que Jorge Feio foi ainda usado em medidas ativas que envolviam o “recurso a fontes menores, sob a capa da escuridão, no âmbito do chamado ‘mercado de rumores’”. Feio morreu em novembro de

Outro dos nomes mais citados por Mitrokhin é o do agente “Kareka” — o escritor e jornalista Mário Ventura Henriques (1936-2006), duas vezes vencedor do prémio literário PEN Clube e principal impulsionador do Festival Internacional de Cinema de Troia. “Contacto operacional do posto do KGB em Lisboa. Verificado através do PCP. Usado em medidas ativas no período 1977-82”, lê-se num dos verbetes. Noutro refere-se que “Kareka” esteve envolvido na publicação de artigos comprometedores para Frank Carlucci, antigo embaixador dos Estados Unidos em Lisboa. Estes artigos foram publicados “de acordo com a orientação recebida do Centro [a sede do KGB, em Moscovo]”. Uma nota de Mitrokhin esclarece que a cooperação de “Kareka” com o KGB chegou ao fim depois de este ter levantado a “questão da ajuda financeira total e ter exigido garantias para o futuro”. Contactada pelo Expresso, Fernanda Silva, companheira de Mário Ventura nos últimos 16 anos de vida do escritor, manifestou a “surpresa muito grande” pelo conteúdo das notas de Mitrokhin. “Sei que ele foi à Rússia várias vezes, mas não faço ideia. Nunca ouvi falar sobre isso”, disse. Além do papel desempenhado no projeto “Tejo”, Eduardo Maia Cadete (“Braun”) esteve também envolvido em ações na imprensa. “Através da influência do agente do KGB ‘Braun’”, lê-se nos papéis de Mitrokhin, “foram realizadas medidas ativas com publicação de textos em jornais de Portugal e Espanha”. Maia Cadete colaborou no jornal “República” e na revista “Vida Mundial”. Entre eles contam-se artigos que visavam, por exemplo, comprometer a rádio Free Europe, uma estação subsidiada pelo governo dos Estados Unidos que emitia para os países do bloco soviético. A ligação de “Braun” ao KGB chegou ao fim depois de ele ter manifestado desacordo em relação à política seguida pela URSS e “ambições materiais totalmente injustificadas, muito acima das suas capacidades pessoais”. A lista de Mitrokhin cita ainda o jornalista Jorge Heitor (“Emil”), “recrutado em 1980 quando trabalhava para a agência ANOP, em Moçambique”. “Antes de ser cultivado por agente do KGB, ‘Emil’ foi verificado através de filiação no PCP”, lê-se num verbete. “Em 1982 regressou a Lisboa. A ligação com ele não foi renovada.” Heitor, antigo jornalista da Lusa e do jornal “Público”, atualmente na reforma — “por o patrão necessitar de poupar dinheiro”, diz —, confirma a militância no PCP até meados da década de 80, mas desmente qualquer ligação ao KGB.“Em Moçambique fui de facto jantar muitas vezes a casa do meu colega correspondente da agência noticiosa soviética. Lembro-me bem dele, um homem forte, baixo. Fez-se muito amigo. O casal servia bons acepipes, uns copos, uns petiscos muito bons. Depois fazia muitas perguntas: qual é a tua opinião sobre este, sobre aquele? Nunca passou disso. Depois percebi que o cargo dele na agência era uma camuflagem.” O jornalista e escritor Josué Guimarães (“Gosha”), correspondente em Lisboa do jornal brasileiro “Correio do Povo”, é descrito como “cidadão brasileiro, personalidade pública em Portugal, progressista, que conhece bem as formas e métodos de trabalho dos serviços soviéticos [...] e que foi incluído na rede da rezidentura de Lisboa em 1976. Realizaram-se 42 encontros com o agente ‘Gosha’, dos quais 38 em Lisboa, dois no Rio de Janeiro e dois em Buenos Aires”, lê-se na nota transcrita em Moscovo. Os dados biográficos e profissionais de Josué Guimarães — como acontece, aliás, com todas as outras fichas individuais transcritas por Vasili Mitrokhin consultadas pelo Expresso — são extremamente pormenorizados e estão corretos. O autor brasileiro morreu em 1986. Sobre Fernando Lima (nome de código “Taor”), antigo diretor da agência ANOP, os papéis de Mitrokhin adiantam que ele foi cultivado pelo posto do KGB em Lisboa no período de 1976-82 e que “forneceu informação política”. “Através dele foram levadas a cabo algumas medidas ativas. Em 1981 foi recebida a informação de que ‘Taor’ está ligado à extrema-direita e a círculos militares e aos americanos.” Lima, antigo jornalista do “Jornal de Notícias”, diretor do “Diário de Notícias”, assessor de Durão Barroso e de Cavaco Silva, reage com uma gargalhada ao texto de Mitrokhin: “Logo em 1974 estabeleci uma relação de grande amizade com um correspondente soviético [Eduard Kovaliov]. Mais tarde veio a saber-se que era um coronel do KGB. Tinha almoços com ele, como também tinha com muitos outros correspondentes estrangeiros. Eu era jornalista, conversava com muita gente. Provavelmente eles gostavam de ouvir as minhas análises políticas. Tudo fontes abertas, não tinha acesso a nada”, diz. Fernando Lima afirma ainda não saber “o que possam ser” as medidas ativas referidas no apontamento. 

Governo Temer poderá acabar com o déficit fiscal com a venda de ativos públicos, a começar pelos campos do pré-sal

Além de arrecadar uma significativa quantia com a venda dos aeroportos de Congonhas e Santos Dumont, o presidente Michel Temer ainda acredita que será possível arrecadar em torno de 10 bilhões de reais com os leilões de campos de petróleo. Dos ativos que o Planalto espera vender para diminuir o rombo fiscal, a área econômica está especialmente animada com a rodada de licitações da ANP Agência Nacional do Petróleo). Mas, para que isso seja possível é preciso aprovar esta semana o projeto de José Serra que desobriga a Petrobras a participar de todos os novos investimentos do pré-sal. Isto é absolutamente necessário também para impedir a falência da Petrobras, que o regime petista deixou com dívidas de 500 bilhões de reais e incapaz de cumprir com os compromissos legais de investimentos.

Michel Temer analisa venda de aeroportos da ponte aérea Rio-São Paulo

O presidente Michel Temer confirmou para o jornal Folha de S. Paulo que está estudando seriamente a venda dos aeroportos Congonhas (São Paulo) e Santos Dumont (Rio de Janeiro), bases da mais rentável operação da aviação comercial no Brasil, a Ponte Aérea Rio-São Paulo. Diz ele: "É possível que venhamos a privatizar, vai ser analisado, Congonhas e Santos Dumont, o que deve dar uma boa soma". Isso é o que o Brasil já deveria ter feito há muito tempo. Qual é a razão pela qual o governo brasileiro deve ser dono de aeroporto? Não há explicação para isso, senão a mania esquerdista, populista, patrimonialista, de presença do aparelho do Estado em todos os aspectos da vida nacional. Se Michel Temer empreender um vigoroso processo de privatização no Brasil, estará rapidamente recuperando a credibilidade do País e retomando o caminho do desenvolvimento e do emprego. A privatização é o caminho para o fim da corrupção.