domingo, 12 de fevereiro de 2017

Operação na ponte Hercílio Luz é concluída em Florianópolis


O trabalho de transferência de 20% da carga do vão central da ponte Hercílio Luz foi concluído na madrugada deste domingo. Antes previsto para ser finalizado às 7 horas, o serviço terminou adiantado por volta de 3h30m. Ele foi dividido em duas etapas, sendo que a primeira acabou à 0h44min. Operários colocaram 26 macacos em 50 pontos diferentes para elevar a estrutura do vão central em 10 centímetros. O serviço foi classificado pelos engenheiros como um sucesso. As equipes de socorro dos bombeiros, Defesa Civil e Polícia Militar não precisaram agir. Ao todo, 200 pessoas trabalham na operação. "Mais um degrau foi vencido. Agora temos outros 21 passos da obra para subir. Os desafios são grandes, mas essa etapa foi um sucesso", afirmou o engenheiro do Deinfra (Departamento Estadual de Infraestura, do governo catarinense) responsável pela obra, Wenceslau Diotalévvy.


De acordo com o engenheiro, dois problemas preocuparam os técnicos durante o serviço. O primeiro foi a chuva, que adiou em uma hora o começo dos trabalhos. O segundo foi o vento, que no começo da madrugada chegou a 40 km/h na região da ponte. Mesmo assim, com a redução da intensidade, foi possível começar a operação. O trânsito ficou fechado na avenida Beira-Mar Norte e na Beira-Mar Continental durante todo o tempo do serviço, mas foi liberado às 3h48min pelo comandante do 4º Batalhão da PM em Florianópolis, tenente-coronel Marcelo Pontes. A segunda etapa da transferência de carga, para levantar a ponte em mais 40 centímetros, ocorrerá entre os meses de julho e agosto. Até lá, os operários vão instalar torres em cada ligação das barras de olhal. Esses apoios serão necessários para sustentar as peças aéreas durante a próxima parte da transferência do vão central. Diferente da operação deste final semana, a que ocorrerá no meio do ano é considerada mais crítica, por isso será feita em 15 dias. Depois que a ponte estiver totalmente levantada, começa a troca das barras de olhal. A previsão otimista do Estado é entregar a obra no primeiro trimestre de 2018 para veículos, pedestres e ciclistas. Mas as bases provisórias de sustentação e as gruas devem ser retiradas somente em outubro de 2018. Antes da operação desta madrugada de domingo dizia o engenheiro Wenceslau Diotallevy: "É pura emoção e ansiedade. Espero que o engenheiro Hercílio Luz esteja torcendo por nós, Nunca foi feita uma operação desta grandeza. Ela é inédita porque nós não temos conhecimento, na engenharia, de ter feito uma intervenção em um vão tão extenso como este e numa ponte tão antiga". Por precaução, 12 famílias que moram na região próxima da ponte foram retiradas. Pessoas, carros e barcos não puderam circular perto da Hercílio Luz. A Defesa Civil montou um grande plano de segurança. "Como durante a obra, nós teríamos 75 pessoas trabalhando nela, preparamos toda uma operação com lanchas, com mergulhadores, para que no caso de um possível colapso, nós pudéssemos responder prontamente", disse o secretário de Defesa Civil, Rodrigo Moratelli. A suspensão da ponte foi feita com 26 macacos hidráulicos. A estrutura será colocada no suporte provisório construído abaixo dela, para aliviar a tensão das torres durante a restauração. Esta operação faz parte do último ciclo de obras para a restauração da Ponte Hercílio Luz, que em 2016 completou 90 anos. 


O governo do Estado de Santa Catarina assinou um contrato para execução do último ciclo de obras para restauração da ponte em março do ano passado com o grupo português Teixeira Duarte e a ordem de serviço foi entregue em 18 de abril. A previsão é que a obra seja concluída no segundo semestre de 2018. 


Nos 34 anos de recuperação da Ponte Hercílio Luz, nenhum momento foi tão fundamental para a reforma da estrutura como o que ocorreu nesta madrugada de domingo. Os outros 80% das 4,4 mil toneladas serão içados entre maio e junho deste ano. A partir de então, a estrutura estará totalmente mantida pelas bases provisórias e por cabos de alta tensão que manterão as duas torres da ponte suspensa.


A ponte Hercílio Luz foi construída com o objetivo de ligar a parte insular da capital do Estado, na ilha de Santa Catarina, à sua parte continental, visando substituir o antigo serviço de ligação por balsas. A ponte Hercílio Luz é a maior ponte pênsil do Brasil e possui o 132º maior vão pênsil do mundo. Teve sua construção iniciada em 14 de novembro de 1922 e foi inaugurada em 13 de maio de 1926. A ponte tem 821,005 metros de comprimento total, sendo formada pelos viadutos de acesso do continente, com 222,504 m, da ilha, com 259,08 m, e pelo vão central pênsil, que tem 339,471 m de extensão. A estrutura de aço tem o peso aproximado de cinco mil toneladas, e os alicerces e pilares consumiram 14 250 metros cúbicos de concreto. As duas torres principais têm 74,21 m de altura. O vão pênsil tem uma altura média de 30,86 m em relação ao nível do mar e a carga total nas cadeias de barras de olhal é de 4 000 toneladas-força. A ponte foi projetada e construída durante o governo de Hercílio Luz. O idealizador não viu seu sonho ser concluído, pois morreu em 1924, doze dias depois de inaugurar uma réplica de madeira, construída na Praça XV especialmente para o ato simbólico. O nome da obra seria Ponte da Independência, o qual foi mudado após a morte de seu idealizador, em póstuma homenagem. O projeto é de autoria dos engenheiros norte-americanos Robinson e Steinman, e todo o material nela empregado foi trazido dos Estados Unidos, tendo sido construída por equipe composta de dezenove técnicos especializados norte-americanos e operários catarinenses. A ponte é citada em livro do escritor americano Gay Talese, um dos mestre do "new journalism". 


O pagamento dos empréstimos, feitos junto a bancos norte-americanos para a construção da ponte só foi concluído em 1978, mais de 50 anos após a inauguração da obra e quatro anos antes de sua interdição. Desde o princípio, o processo de financiamento foi complicado. O primeiro banco que havia emprestado os 20 mil contos de réis ao governo catarinense faliu. Assim, um novo empréstimo teve que ser obtido, atrasando as obras. Além disso, uma manobra dos banqueiros norte-americanos fez com que o Estado de Santa Catarina se responsabilizasse por dívidas da instituição falida. Ao final, o custo atingiu 14 milhões 478 mil 107 contos e 479 réis — praticamente o dobro do orçamento do Estado à época. 


Desde que foi fechada, em 1982, por medida de segurança, a Ponte Hercílio Luz serviu apenas de cartão postal, como ponto de referência e para embelezamento da cidade. Reaberta em 15 de março de 1988 somente ao tráfego de pedestres, bicicletas, motocicletas e veículos de tração animal, foi novamente fechada por completo em 4 de julho de 1991, depois que um relatório de análise de viabilidade da reabertura do tráfego da ponte foi apresentado em fevereiro de 1990. 

Empreiteira propineira Queiroz Galvão troca toda a cúpula e corta 13 mil funcionários


Aerogeradores do parque eólico da Queiroz Galvão Energia em Icaraí, no Ceará
De maneira silenciosa, a empreiteira propineira Construtora Queiroz Galvão promoveu uma mudança profunda em sua estrutura no Brasil com a troca de sua cúpula e o enxugamento de funcionários. Uma das empreiteiras atingidas pela Lava Jato, a empresa substituiu por completo seus principais executivos enquanto cortava empregados para enfrentar o apagão de obras no País. Desde 2014, 13 executivos do comando da construtora foram afastados de seus postos. Eles foram substituídos por funcionários recrutados no escalão inferior ou fora da companhia – a diretora jurídica, por exemplo, veio da empresa de concessões Invepar. Hoje, não há mais nenhum executivo ligado ao ex-presidente Ildefonso Colares Filho, que foi preso na Lava Jato. No total, nove cargos foram extintos, incluindo os de vice-presidente. Sete diretores respondem ao presidente, Petrônio Braz Junior. A reestruturação durou três anos, período em que a empreiteira também encolheu. As receitas passaram de R$ 5 bilhões em 2013 para R$ 2 bilhões em 2016, segundo executivos a par dos números. Os funcionários caíram  de 20 mil para 7.000. O jejum de contratos durou todo o ano de 2016 – após o longo hiato, um projeto foi fechado na semana passada com o governo de São Paulo. Divisão que deu origem ao grupo em 1953 em Pernambuco, a construtora ainda é um dos negócios mais importantes do conglomerado, que tem braços em energia, saneamento, logística e óleo e gás. O avanço da Lava Jato forçou a empreiteira a acelerar planos de profissionalização, processo iniciado por Braz Junior. Na Queiroz Galvão desde os anos 1980, quando ingressou como estagiário, ele substituíra Colares Filho em 2013, vindo de um posto no Exterior, com a missão de modernizar a empresa. Braz Junior foi implicado na Lava Jato por ter assinado um contrato de consultoria da empresa com Paulo Roberto Costa, ex-funcionário da Petrobras. Ele diz que o acordo foi herdado da gestão anterior e que não sabia que era um acerto de fachada. O conselho de administração, formado pelos herdeiros Maurício, Ricardo e Fernando de Queiroz Galvão, passou a ter membros independentes: os economistas Mailson da Nóbrega e Ricardo Sennes. Uma diretoria de compliance (cumprimento da legislação e de regras de conduta) foi criada – até 2014 não existia sequer código de ética. Os executivos passaram por 42 horas de aulas sobre as leis anticorrupção e concorrencial. Os funcionários dos canteiros de obras assistiram a videoaulas. Os acionistas também receberam treinamentos e assinaram um termo de compromisso, afirma Ana Cristina Freire, diretora de compliance da empresa. As novas regras incluem o veto a presentes para agentes públicos. Para dá-los, é necessária a autorização da diretoria de compliance. Reuniões com políticos ou servidores só podem ocorrer se houver mais de um funcionário da empresa no local. As mudanças são reação à crise de reputação da empresa propineira. Ela faz parte do clube de empreiteiras que fraudava licitações da Petrobras. Mas também ajudam no relacionamento com bancos e investidores, algo fundamental para a construtora, que espera estabilizar suas receitas a partir deste ano. A Queiroz Galvão foi a primeira das empreiteiras da Lava Jato a ter o crédito para obras no Exterior liberados pelo BNDES. O programa de compliance também contribuiu para que a empreiteira propineira conseguisse renovar debêntures de R$ 200 milhões no fim do ano passado. Como parte das iniciativas para melhorar sua imagem, a Queiroz Galvão financiará um projeto para dar mais transparência às contas de municípios. A primeira parceria da empreiteira foi firmada com São Sebastião (SP). A administração local receberá a consultoria da Agenda Pública e do Instituto Ethos. Custeadas pela empreiteira, farão um diagnóstico do acesso franqueado à população sobre dados como despesas, licitações, editais e contratos. Um plano de ação para melhorar o combate à corrupção e os sistemas de controle da prefeitura será formulado. O projeto deve durar até 2020, o que coincidirá com o fim do mandato do atual prefeito, Felipe Augusto (PSDB). Apesar de ter só 80 mil habitantes, a cidade litorânea concentra duas das 15 obras tocadas hoje pela propineira Queiroz Galvão no País. A existência de um porto e de operações da Petrobras na região indica que o crescimento do município deve ser acentuado, diz Ana Cristina Freire, diretora de compliance da empresa, área responsável por impedir que funcionários cometam irregularidades. Segundo Freire, a iniciativa visa melhorar o ambiente e os processos do serviço público. "A preocupação com ganho de imagem vem somente depois."