sexta-feira, 11 de maio de 2018

Documento da CIA diz que Ernesto Geisel confirmou ordem para matar terroristas, sob seu exclusivo comando


Depois da morte sob tortura do jornalista Wladimir Herzog, então diretor de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo, no DOI-Codi (Oban Operação Bandeirantes, nos fundos da Delegacia de Polícia Civil de São Paulo, localizada na rua Tutóia, bairro do Paraíso), em 25 de outubro de 1975, e do operário Manuel Fiel Filho, em 1976, o general presidente Ernesto Geisel exonerou o general Ednardo D’Ávila Mello do comando do poderoso II Exército. Mais tarde, demitiu o general de linha-dura, Sylvio Frota, dando voz de prisão a ele, e anunciou a política da Abertura. Na esteira desse movimento, retirou os censores das redações dos jornais e extinguiu o AI-5. 

Mas, agora, o pesquisador brasileiro Matias Spektor, da FGV, encontrou um documento da CIA que recém desclassificado que desmonta a imagem de redemocratizador do ex-presidente. É a primeira vez que aparece um documento que associa os nomes de Ernesto Geisel e do general João Figueiredo a ordens de execução de presos políticos, ou terroristas. O memorando de 11 de abril de 1974 que William Egan Colby (diretor da CIA entre 1973 e 1976) enviou ao Secretário de Estado, Henry Kissinger, tem um título nada sutil: “Presidente brasileiro Ernesto Geisel decide continuar execução sumária de subversivos sob certas circunstâncias”. Em um texto curto de seis parágrafos, alguns deles ainda “not desclassified” (não liberados), o diretor relata que, em 30 de março de 1974, Geisel se reuniu com os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino, do Centro de Inteligência do Exército (CIE), e o general João Baptista Figueiredo, do Serviço Nacional de Inteligência (SNI). Exatos 15 dias depois de tomar posse (15 de março de 1974). Ouviu que o Brasil não poderia ignorar a “ameaça subversiva terrorista”.

O general Milton Tavares contou que métodos ilegais foram empregados contra “subversivos perigosos”, e que 104 pessoas haviam sido sumariamente executadas pelo CIE nos últimos anos, diz a CIA. Figueiredo apoiou a continuidade desse tipo de combate à subversão. Segundo relatório da CIA, “em 1 de abril, o presidente Geisel disse ao general Figueiredo que a política deveria continuar, mas que cuidados deveriam ser tomados para assegurar que apenas subversivos perigosos fossem executados". “O presidente e o general Figueiredo concordaram que, quando a CIE prender uma pessoa que possa ser enquadrada nessa categoria, o chefe da CIE consultará o general Figueiredo, cuja aprovação deve ser dada antes que a pessoa seja executada. O presidente e o general Figueiredo também concordaram que a CIE deve dedicar quase todo o seu esforço à subversão interna, e que o esforço geral da CIE será coordenado pelo general Figueiredo”, finaliza o memorando. Pode-se então deduzir que o afastamento do general Ednardo foi por insubordinação; não pedira autorização para matar. E que os combatentes da Guerrilha do Araguaia foram executados com aprovação do Planalto. Assim como três dirigentes do PCdoB, Pedro de Araújo Pomar, Angelo Arroyo e João Batista Franco Drummond, executados na Lapa em dezembro de 1976.

É evidente que Geisel não era um pastos protestante. Era um militar rígido, assim como seu irmão, Orlando Geisel, que seu ministro do Exército. Se ele derrubou os "linha dura", como Ednardo D'Ávila Mello e Silvio Frota, entre outros, foi para demonstrar que ele era o comandante máximo, que só ele dava ordens, que os outros deveriam seguir; e que só ele comandaria o processo de sua própria sucessão, e que ele seria o responsável pela escolha de seu sucessor, e não os outros comandantes militares. Na real, não parece haver nada de muito excepcional no documento encontrado pelo pesquisador da FGV. Somente um cinismo muito grande ignoraria o que acontecia naquela época no Brasil, nos dois sentidos. Clique no link a seguir para consultar o documento original em inglês https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1969-76ve11p2/d99?platform=hootsuite

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