quinta-feira, 8 de março de 2018

A proliferação da impostura nas universidades públicas brasileiras

Artigo do filósofo e jornalista Luis Milman 

A proliferação, nas universidades públicas federais, de cursos sobre o “Golpe de 2016 contra Dilma Roussef", escancara a falta de vergonha e de pudor, que são valores indispensáveis na vida acadêmica, assim como a busca da verdade. Demonstra, ainda, que a vida intelectual e crítica na Universidade deu lugar à militância abjeta de um corpo de professores esquerdistas e intelectualmente paranóicos. Os cursos são propostos na forma de uma invalidez lógica, pois supõem aquilo que deveriam demonstrar, viciando, assim, a alegada tese golpista com uma petição de princípio. A derrapada lógica que os caracteriza expõe o fato de que nada que possa vir a ser objeto de análise nestes cursos guarda sequer uma remota proximidade com os fatos que levaram Dilma Roussef a ser apeada do governo.

O que ocorre nestes cursos de extensão abrigados em universidades públicas, que desejam tematizar um inexistente golpe, em flagrante percepção delirante do que ocorreu no processo do impeachment, é uma tentativa de rebaixar a institucionalidade e a legalidade de todo o processo que levou à destituição constitucional de Dilma Roussef. Mais ainda, é uma tentativa articulada de construir uma narrativa com base em pressupostos aparvalhados, próprios de uma classe de professores militantes do PT que, há muito, dominam culturalmente a universidade, em especial a área de ciências humanas, 

Estes cursos sobre o golpe que não existiu deformam a racionalidade científica em sentido estrito, porque Dilma Roussef foi processada pelo Senado Federal, por crime de responsabilidade, com a autorização da Câmara dos Deputados, tudo em conformidade com a Constituição e a Lei do Impeachment. 

É de se perguntar, se houve golpe, quem o praticou? A resposta é sempre conspiratória. Quem executou o golpe foi a mídia, os poderosos, o aparato jurídico e forças de segurança dos Estados Unidos, como as definiu num artigo recente aquele ex-frei marxista Leonardo Boff. Que líderes de partidos indecorosos e uma militância desprovida de raciocínio e em permanente estado de delírio acredite nesta fórmula, se entende. Mas quando professores de universidades federais, ainda que esquerdistas, professam a mesma crença degenerada e assumem papel de protagonistas na denúncia de um golpe inexistente, o caso torna-se grave. 

Se quisessem analisar honestamente o que ocorreu em 2016, que fossem buscar pesquisadores que fazem pautar suas análises sine ira et studio, que pudessem demonstrar que, em todos os sentidos, a legalidade institucional foi preservada e a conclusão inevitável do processo foi o afastamento definitivo da presidente petista da Presidência da República, com a consequente posse do seu vice legítimo, como manda a lei, Não houve golpe algum, não houve ruptura institucional alguma.

As universidades públicas que abriram suas portas para a enganação e a falta de vergonha, estão consorciadas numa missão revisionista. Elas não podem levar a termo cursos sobre o golpe sem que deixem de falsificar a história, sem que lancem mão de uma mitologia abjeta de conspirações, e mais, sem que rebaixem seus professores ao nível de impostores.